quinta-feira, 30 de junho de 2011

Parte IV


Algo interessante? Olhar a rua. Observar vizinhos. Agora com tempo, Federico sentou-se no seu sofá verde seco, de ombros encolhidos na tentativa de aquecer o pescoço, com o Cappuccino entre as mãos, embrulhado numa manta castanha que podia muito bem ser confundida com um velho trapo, e iniciou um processo de coscuvilhice elaborado. Para lá da grande vidraça da sala que separava Federico da rua - que agora era sua - uma pequena menina brincava com uma bola de futebol. Com a sua bicicleta despejada no meio do passeio, dava violentos pontapés na bola, de um lado para o outro. Em cada pontapé parecia ansiar a chegada de um parceiro para receber e devolver a bola. Então só brincava, só. Com duas tranças compridas, compostas por um cabelo forte, negro, que lhe caía longo pelas costas. A cara branquinha e inocente. Era a pequena Darla Warren, filha única de uma família bastante reservada, assim era conhecida por todos. De quando em vez, ouviam-se gritos, cheios de palavras balbuciadas, vindos da casa da pequena Darla. Ela parecia feliz e indiferente a tudo o que pudesse parecer instável naquele lar. Descendo a rua, um homem grisalho envergava uma farda velha, provavelmente da marinha. Era visto, com alguma regularidade, sair de casa com sacos de plástico pretos. Com a agilidade característica de um velho de 80 anos, atravessava o seu jardim com os sacos na mão, até chegar ao contentor do lixo. Com a mesma agilidade regressava para casa. Sacudia as mãos, em gesto misto de limpeza e dever cumprido. Era conhecido por Capitão. Tratava todas as pessoas, sem excepção, por “meu Soldado”. Dá-se pelo nome de Claus Jordan. Na casa em frente vivia um jovem casal, aos olhos de Federico, peculiar. Casal de “Góticos”, assim decidiu chamá-los. Vestiam-se de preto, com grandes botas e com correntes que quase arrojavam no chão. Ambos, furados na cara, tatuados nos braços e com os olhos pintados de preto. Os cabelos, graças a fixadores, certamente de qualidade, desafiavam as leis da gravidade. Esta era a família Wheeler, Georgia e Flem.
Aquela rua que ontem parecia agradável, estava agora feita no bizarro que os seus olhos alcançavam. Federico chegou-se à frente no sofá, saindo da sua posição confortável, pousou a chávena já a meio e olhou para a casa do lado.

- Então é dali que vem o som de corta sebes. – disse Federico ao ver o homem que no dia anterior tinha visto na espreguiçadeira a ler um jornal.

Cinquenta e poucos, a tratar do seu desleixado jardim, sem pessoas a gritar, sem uma farda velha, nem piercings. Perfeito. Haja alguém normal nesta rua – normal.

- Precisa de ajuda? – perguntou Federico ao vizinho – normal.

- Ora viva... – respondeu este descendo o escadote com pressa, tirando as luvas de jardinagem e esticando a mão para um forte cumprimento. – Muito prazer, Tom Sachs.

Sem comentários:

Enviar um comentário