domingo, 18 de abril de 2010


Que flor colhi eu naquela manhã. Bonita. Mas sem cor, cabisbaixa, já quase sem vida. A terra onde as suas raízes se prendiam estava seca e granulada. Sem vontade de a fazer crescer. Sei que a salvei. Restringi a sua liberdade a um simples vaso. Grande o suficiente para lhe fazer ver que a vida é mais ampla que a sombria floresta onde habitava. Desamparada. As suas tristes folhas respiravam o que o ar lhe trazia, sem preocupação. Contentada, bebia o que as chuvas lhe ofereciam, sem razão. Porque sim. Agora, neste vaso vives. Podes finalmente dizer que sentes a tua terra. Esta que te cobre as raízes. Fortes. Essa terra sou eu quem a fertiliza e molha. Sou eu que me preocupo – todos os dias – em saber se estás bem. Nunca antes te conheceste assim. Desabrochada, colorida, altiva. Esse novo e recente encanto que lanças no ar é difícil de acompanhar. Só eu te entendo. Fui eu que te salvei. Será que me estás grata? Em cada raio de sol que te abraça eu sinto-me a abraçar-te. Nesses abraços de fábulas sinto-me capaz de te ouvir dizer que sim. E nesse instante seguro de imaginação fértil, tu sussurras-me num tom melancólico – Obrigado. Nesse momento eterno como o tempo, escuto sem te olhar e continuo no abraço apertado. Se um dia sentires que o que te dou não serve o teu nítido brilho – como os olhos que te vêem todos os dias – podes sair do pequeno vaso em que te coloquei. Essas raízes, de tão grandes, já tocaram nestas paredes indeterminadas vezes, que já parece insignificante o tanto que te reguei – todos os dias. Se quiseres sair, sai. Vai. Sente ventos cheios daquilo que não te posso dar. Recebe com todas as folhas que te fiz crescer a imensa chuva que nunca te proporcionei. Mas lembra-te, tudo isso que te cairá nas mãos é aleatório. A chuva, o vento. São rasgos de intensa liberdade, mas sem te ter a ti no centro do jardim. Em liberdade serás livre, só não serás feliz.

Se um dia quiseres voltar,
Não vou saber onde te encontrar.
E estes muros são altos, difíceis para uma flor como tu trepar.
Não te surpreendas se no vaso onde costumavas estar,
Vires outra flor no teu lugar.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Viagem


Já toquei nessa pele vezes sem conta. Lembras-te? Sei por onde começar. Começo sempre pelos pés. Merecida e suave delicadeza, os contornos dos teus dedos. Pressiono com movimentos intensos a barriga das tuas gritantes pernas. Que pernas. Subo. Queres? O sorriso tímido, sincero, insinuante responde que sim. Eu prossigo a minha jornada, ofegante, desejoso. Com hesitantes e calmos toques sigo em terreno íntimo, mas para mim, tão fiel. Esquivo os meus gestos para te alcançar o pescoço. Agarro-te. Qualquer uma pensaria que a queria estrangular. Mas tu não. Entendes o meu desejo. Tu própria, sem eu te tocar, sentes o teu fôlego bailar ao som do sufoco que te provoco. A mensagem é clara. Quero-te. Desço a minha mão até ao teu peito. Toco-te. Sinto-te. Sentes? Os teus olhos dizem-me que sim, num revirar trepidante, louco. Não hesito. Vou morder a tua eterna barriga – para sempre, como eu e tu. Mordo, enquanto te olho directamente nos olhos. É preciso dizer? É preciso dizer que de seguida vou sentir? Vou descobrir os mistérios húmidos, os teus espontâneos desejos. Enquanto me agarras no cabelo em sofrimento prazeroso, mordes inconscientemente o teu lábio inferior, contorces-te como que por magia e embrulhas-me conjuntamente numa exaltação impossível de controlar. Quero mais, e toco. Com as duas mãos sinto a tua cintura e passeio com anseio pelo teu tronco, até encontrar de novo o teu peito. Sentes? Eu sei que sim. Vejo no teu corpo, que responde com doces arrepios. A noite quente aquece a nossa vontade. O que nos refresca são os nossos suores, que em todos os modos são sensuais e nos unem. Quero-te. Vem cá. Agarro-te, e pela primeira vez o teu peito junta-se ao meu, num abraço profundo com intenções definidas. És minha. Sou teu. Os movimentos dos nossos membros buscam aquilo que sempre quiseram. Prazer. As tuas unhas cravadas nas minhas costas dizem-me que sim. O desenho que lá deixaste significa que não me queres longe – longe está quem tem medo de sentir. Agora, liberta esse animal que sempre me mostraste mas nunca me deixaste ver. Quero isso que sempre descreveste como sendo amor. Como sinto. Será que sentes também? Eu sei que sim. Os teus toques e apertos, gemidos e carícias respondem-me que sim. De novo, cravas-me as unhas nas costas. Neste momento perco-me em definições exuberantes de qualquer tipo de prazer. Estou perdido, contigo, nesta viagem alucinante que somos nós os dois.