terça-feira, 27 de novembro de 2012
Confiei
Confiança em demasia
É o ar dos sufocados
Uma simples melodia
De acordes desafinados
Que soam em sintonia
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Caro Eu
Pudesse eu ver-te, e com alguma vergonha apresentava-me. Queria poder me definir perante ti, e explicar no que me tornei, ou tornámos, hoje. Tu que ainda não entendes bem que rumo seguir, queria te explicar como é difícil decidir. Queria poder te mostrar como viver das opções que tomo, ou tomamos, é a sensação de domínio e risco que torna a vida um jogo, no qual não terás volta a dar. Sei que tens apenas 15 anos, mas gostava de te ver e talvez tivesses algum orgulho no que me tornei, ou tornámos. Gostava de te dizer que sonhar é o que vai fazer de ti cada vez melhor, mesmo que possa parecer louco. O nosso encontro não seria para te salvar de mal nenhum, acredita. Estou, ou estamos, muito bem. Não mais queria senão contar-te como tem sido a nossa vida. Sim a nossa. Fiz o melhor que pude, mas às vezes acho que te desiludo, e anseio que a tua ingenuidade solte palavras que descrevam os sonhos que às vezes me esqueço que sonhámos. Juro, que recentemente tenho dado mais atenção a tudo o que um dia planeamos fazer, que tanto nos ocupava e nos fez passar horas em mundos fechados, só nossos. Gostava de estar perante ti, humilde, e perceber que cresci. Perceber que tu é que estás correcto. Provavelmente não ias dar valor, és muito novo, e conheço-te bem para saber que me ias olhar acautelado, mas o facto de me lembrar de ti, só por si é um gesto grande. Eu respeito tudo o que um dia pusemos na cabeça e determinantemente concluímos que não podia ser diferente. E se o fiz diferente, desculpa. Mas este gesto, este meu respeito por ti, significa que deves continuar a ser assim. E não faças diferente, como eu fiz. Se pudesse dir-te-ia para, aqui e ali, seguires o nosso plano. Tenho saudades tuas. Gostava de te dizer para não te preocupares, que não engordámos, nem estamos em vias de ser careca, para já. Em geral temos sorte. As coisas, às vezes, caiem-nos no colo, só não esperes ganhar no jogo. Nisso sim, temos azar. Meu caro Eu, se te pudesse ver dir-te-ia tudo isto com alguma vergonha e humildade, já o disse, por saber que és mais puro e seguro que eu. Na despedida, já sei que me ias estender a mão, tímido e com medo de abraçar um homem de barba, mas eu de qualquer modo ia te roubar um abraço, sentido, para me lembrar como é importante saber encarar o que fomos um dia. E claro, tu dirias Adeus, distante, desconfiado – espero que nunca desiludido – mas eu, com o respeito que te tenho, diria Obrigado por tudo.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Fixação

Nele se perde, porque nada nele conhece. Adora explorar o que de mais estranho lhe vem ao toque, e passa horas, sozinha, dentro dele. Qualquer olhar vazio, direccionado para outro qualquer momento, sem ser aquele vivido com ela, não lhe é de nada importante, porque ela já se ocupa demais com os momentos em que, por acaso, os olhos dele se encontram com os dela. Cada palavra por ele pronunciada ganha asas, solta-se pelo ar e esvoaça desordenada, e só ela tem o trabalho de as apanhar, qual contumaz caçador de borboletas. Suspira sobre o que ele diz, ainda que nenhuma palavra pose sobre ela.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Sala

Ontem ela acordou e esqueceu-se que também ele, às vezes, sabe como sorrir. Fica feliz com o que ela diz. Ele não finge. Ela rápido se lembrou. Passam-se horas, e o tempo é o que menos passa. Correm copos, fica o vinho. A noite salta na sala, a madrugada espreita pela porta. Nos olhos dela vê-se uma noite alucinante, que faz tremer o passado. O disfarce mascara-se de conversas sobre Deus. Existe sim. Não, não existe. Ela acredita, mas fé é o que lhe falta. Para ele existe apenas fé. A crença dela é pessimista. Acreditar e não ter fé, é como ter carro e andar a pé. Diz ele, e nem acredita. A madrugada entra, senta e fica. Ela esqueceu-se que ele consegue ver os pedaços dela - que ele deixou - no chão. Mesmo que não lhes dê a mão para pô-los no lugar. Ele não tem mãos firmes, ele sabe, e explica que em tudo o que agarra, lhe escapa como areia no mar. Mas sem vontade. Queria ele ser agarrado. Ela sentada, respira, aguarda. Ele tenta convencê-la que ela gosta dele, e ela fixa-se em como é chato o coração. Do pouco que resta, diz ele que já não presta. Sai. Pede ela. Mesmo que seja chato, ela quer que o coração bata. Funcione. Anseie. Caso contrário, sai. Ele fica. A manhã altiva e despreocupada, entra sem convite, para iluminar os olhos dela. Estão fechados, mas não deixam de ser do escuro penetrante, que ele elogia. Aquele escuro que tanto se molha de angustia, por saber que de si sai mais luz do que a manhã trouxe. Sai vida e essa vida preocupa. Agora sim, ele tem de sair. Ela sai com ele.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Vou II
Quem se senta comigo hoje sabe, que nada disto durará mais que hoje. É aqui. Cheguei. Gostaria de falar do inicio, mas cheguei ao fim. Em cada mão sobre o ombro, sorrio firme, agradeço. Salvo memórias nas quais sou mais um, implico com a suavidade mas de forte sobra pouco. É aqui que paro e escuto o que me dá vento, que me arrefece do quente que está este lugar. Guardo tudo meu e levo comigo o que posso. O que perdi pelo caminho encaro como oferta, de tudo aquilo que tem escolha. Escolhi oferecer-te este lado de mim. O resto deixa comigo, ainda preciso, para ser largado de bem alto e ver tudo passar, tudo aquilo que passei. Solto brilho de cada um dos olhos, desinibido. E que me desculpe a quem faço o mesmo, mas admito, é bonito. Saudades. Já as sinto.
num quarto quente no Rio de Janeiro, último dia
num quarto quente no Rio de Janeiro, último dia
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Travesti

A barriga suja de uma cidade secreta
Na estação as mesmas putas baratas de sempre, junto ao bar
E os gajos sem camisa desprezam tudo o que a mãe acredita
Um maço de cigarros e um pouco de cocaína, ajuda-te a sentir menos estranho
O meu velho disse, “Ela não sai, a menos que alguém esteja junto dela”
“E ela vai brilhar, assim que pisar o risco, com as mãos amarradas à cadeira”
Eu disse, “Espalha no chão, mete um som de ruído branco, como um traveca naquela rua”
Estes parolos têm a cabeça feita num nó
Eles não sabem o que amam ou merecem receber
Provavelmente põem o isco no anzol
Sem saber que peixe gostariam de morder
Esta noite
Ir para casa em serviço
Isso é que é paz?
Dedos enfiados no sujo
E ele cospe os próprios dentes.
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