quinta-feira, 23 de julho de 2015

O velho

Ele tem um novo fascínio. Mas já lá vamos. Antes existia algo nele que permanecia ignorante sobre o tempo. A idade. Não existia nele uma consciência sobre o passar das horas, dos dias, dos anos. Ele - por querer - acreditava que ficaria jovem por muito tempo. Lá está o tempo. Esse "muito tempo" para ele não tinha tempo. Falta de noção. Não era por mal, ele era assim. Ele não era o único, atenção. Todos acham que o fim é apenas uma palavra. Nunca associamos o fim ao parar de respirar, à dor, ao sofrimento, à velhice, à morte. O presente é eterno. A força, a pele, os dentes, o cabelo, são eternos. Ele pensava assim. O fim era pouco mais que uma palavra. Porém, ele mudou. O corpo foi apanhado pelo tal tempo, aquele tempo que nos faz olhar ao espelho e descobrir que certos riscos não estavam ali antes. Merda. Ele mudou mas o fim continua a ser para ele uma palavra apenas. Agora, o tempo já lhe é mais real. Corre ao nosso lado. Se estalar os dedos no intervalo de cada segundo do relógio estou fintar o ritmo do tempo, mas cada estalar de dedos repetido nunca será como o anterior. O que foi, não volta a ser. Ele começou a tomar consciência disso. Que tudo o que lhe vem ao toque pode muito bem ser a última vez que lhe toca. Espera lá. Pensou ele. Décadas. Ele já fala que fez isto e aquilo com décadas de intervalo. Mais décadas virão. Aquele verão, não foi há cinco, foi há dez. Aquela tarde junto ao lago, aquela tarde inesquecível. Ia jurar que tinha sido ontem. Foi aí que ele a beijou. Foi ontem? Não. Estúpido. Foi há dez anos. Nada o impede de morrer amanhã, mas também nada o impede de viver mais quarenta ou cinquenta anos. Pode muito bem estar no meio da sua vida. Supostamente, começa agora. Mas, espera. Se começa agora, tudo o que ele viveu toma agora uma dimensão, um volume. Ele sente uma mochila às costas, agarrada ao seu corpo só porque ele quer. Podes muito bem andar sem esse peso - larga a mochila porra - aceita caminhar mais leve. O que o apavora, agora que ele mudou e se apercebeu do tempo, é que antes ele achava que essa mochila não existia. Agora não só existe, como também se tornará ainda mais pesada. Larga. Deixa. Não. Ele gosta do que viveu. Percebe que quer continuar a enchê-la. Paixões. Amor. Jovem. Infância. Mãe. Largar? Não. Aqui nasceu o fascínio. Ele tem um novo fascínio. Ele tem um fascínio por velhos. Sim, velhos. Pessoas idosas. No tempo - lá está o tempo - em que ele era ignorante sobre o tempo - cá está o tempo - ele via um velho como uma pessoa que é velha. Pronto. Como quem vê uma mesa. Não mais que uma mesa. É mesa, foi mesa, será mesa. Um velho, era um velho. Agora, um velho - para ele - é um portador de uma mochila enorme. Ele vive fascinado sobre o que cada velho tem na sua mochila. Tudo isto parece óbvio. Mas não é. Ele tinha esta incapacidade. Não se pode - não se deve - julgar. Ele tem agora uma maior consciência sobre a existência, sobre o tempo. O fim não é mais que uma palavra. Uma vez ele viu um velho. Ele pediu. Fala-me do teu primeiro amor. Lembras-te do teu primeiro amor? O velho falou do seu primeiro amor. Ele perdeu-se nas palavras do velho, nos suspiros do velho, na boca do velho, que salivava entre detalhes íntimos. Os olhos humedecidos do velho, as rugas vincadas ao sorriso do velho. Era a cumplicidade do velho com o tempo. Ele sabe - ou ficou a saber - que tudo o que o fascina no velho só virá com o tempo. O fim - como tudo - não passa de uma palavra.