
Ontem ela acordou e esqueceu-se que também ele, às vezes, sabe como sorrir. Fica feliz com o que ela diz. Ele não finge. Ela rápido se lembrou. Passam-se horas, e o tempo é o que menos passa. Correm copos, fica o vinho. A noite salta na sala, a madrugada espreita pela porta. Nos olhos dela vê-se uma noite alucinante, que faz tremer o passado. O disfarce mascara-se de conversas sobre Deus. Existe sim. Não, não existe. Ela acredita, mas fé é o que lhe falta. Para ele existe apenas fé. A crença dela é pessimista. Acreditar e não ter fé, é como ter carro e andar a pé. Diz ele, e nem acredita. A madrugada entra, senta e fica. Ela esqueceu-se que ele consegue ver os pedaços dela - que ele deixou - no chão. Mesmo que não lhes dê a mão para pô-los no lugar. Ele não tem mãos firmes, ele sabe, e explica que em tudo o que agarra, lhe escapa como areia no mar. Mas sem vontade. Queria ele ser agarrado. Ela sentada, respira, aguarda. Ele tenta convencê-la que ela gosta dele, e ela fixa-se em como é chato o coração. Do pouco que resta, diz ele que já não presta. Sai. Pede ela. Mesmo que seja chato, ela quer que o coração bata. Funcione. Anseie. Caso contrário, sai. Ele fica. A manhã altiva e despreocupada, entra sem convite, para iluminar os olhos dela. Estão fechados, mas não deixam de ser do escuro penetrante, que ele elogia. Aquele escuro que tanto se molha de angustia, por saber que de si sai mais luz do que a manhã trouxe. Sai vida e essa vida preocupa. Agora sim, ele tem de sair. Ela sai com ele.