Ele vai contar como conheceu a namorada. No tempo em que ele não gostava dela, e ela não sabia. Hoje não consegue sair de casa sem antes pegar a nuca dela, por entre os seus fortes e curtos cabelos pretos para assim levar até aos seus lábios a sua pálida e inocente testa.
Num beijo de saudade despede-se e sai com a frase, "Até logo". Sempre. Ele vai contar como aos poucos viu nos seus movimentos descoordenados e jeitos irritantes, a beleza da sua autenticidade, só dela. Um dente encavalitado no seu sorriso passou de torto a diferente, deixou de ser feio, agora é especial. O amor não é cego, é esclarecedor. Antes estava enganado, agora ama.
Ela entrou no bar, acompanhada de uma amiga minha, onde já estava sentado à mesa com alguns amigos. Canecas de cerveja a meio, cinzeiros com beatas e com cigarros a queimar. Conversas envolvidas em gargalhadas, foram interrompidas para receber quem chegava. Ela vinha de fora, estava de visita, assim disse quem a apresentou a todos. E a todos acenou à distância, com um sorriso simpático.
De imediato o arrastar de cadeiras à volta da mesa seguidos de convites para se sentarem. Dedos no ar para pedir mais canecas de cerveja. Ela disse que não bebia. Quis antes uma água com gás. Irritou-me. Sem razão irritou-me, essa atitude de contrariar um grupo de desconhecidos, para além de ter sido a maneira mais óbvia para se destacar. Ficou no lugar à minha frente. Vi como a cada pergunta que lhe era colcada por alguém na mesa, a sua resposta era sempre acompanhada de um sorriso tímido e comprometido. As suas bochechas rosavam gradualmente, o que lhe dava um ar de velha transmontana enfrascada em vinho. Nesse dia, não lhe fiz perguntas, não troquei olhares, não senti nada. Estava enganado.
Muitos encontros em conjunto com o mesmo grupo de amigos se seguiram. Enquanto a sua visita a Portugal durou, ela era presença assídua nos jantares, bares, saídas à noite, onde todos os meus amigos se reuniam. Ela entrava, era uma estranha. A sua voz não era ainda reconhecida, falava pouco. Sorria muito, ria pouco. Cabelo quase rapado atrás, uma franja que quase tapava o olho esquerdo. Um tique com a cabeça para tirar a franja do olho. Calças largas, sandálias com brilhantes. Sempre que mexia o braço, as dezenas de pulseiras faziam o característico trilitar. Já a tinha analisada, e não era uma presença que me agradava. Mas tão pouco me era indiferente. Deixou de me irritar, passou a intrigar. Continuava enganado.
Ela regressou à Dinamarca. Nunca tive saudades.
Passado um ano da sua visita, surgiu um convite do mesmo grupo de amigos. Fazer uma viagem pelo norte da europa, com paragem na casa de uma amiga que vivia em Copenhaga. Era ela. Até que, pela primeira vez, me ocorreu perguntar algo sobre ela. O que fazia da vida afinal? Bailarina. Surpreendeu-me, não o facto de ser bailarina, mas antes pelo simples facto de ser a primeira informação transparente que a caracterizava. Era afinal uma bailarina. Deixou de ser apenas ela, a do sorriso amarelo de cabelo curto. Podia agora imaginá-la num palco, a dar algo mais que um sorriso em resposta a um comentário sem graça. Contudo, não foi assim que me interessei. Continuava enganado.
O papel de anfitriã serviu-lhe à medida. Apresentou, falou, bebeu, cantou, riu e sorriu. Estava no seu ambiente, sem corar, olhava e deixáva olhar. A casa de alguém é sempre o reflexo de quem lá vive. É um mundo próprio, com cheiros, cores e texturas criadas por quem nela respira e dorme. É intimo, e eu senti essa intimidade, por mais que nunca tivesse tido até então. Nessa visita ao seu mundo senti que conheci uma pessoa, mesmo sem falar muito com ela, senti que a conheci. Mais ainda quando nessa noite assistimos ao seu espectáculo. O seu talento fez projectar uma visão paralela dela mesma. Não podia ser a mesma mulher que me irritou há um ano atrás. Esta era elegante, coordenada, delicada, intensa, genuína. Estava apaixonado.
No fim do espectáculo não consegui mais do que dar-lhe os parabéns e um abraço forçado. Recebi um obrigado doce e sincero. No meio de tanta gente a querer um pouco da sua atenção, aquele obrigado foi suficiente. Mais tarde, não conseguia dormir. Para além do chão da sua sala ser bastante desconfortável, o ressonar de todos os presentes fazia desconcentrar-me ainda mais do sono. Nisto passa alguém pela sala em direcção à cozinha. Era ela. Levantei-me e segui-a. Só a luz do frigorífico aberto iluminava o seu corpo coberto num comprido lençol branco, enquanto bebia leite directamente da embalagem. Ao sentir a minha presença assustou-se e deixou cair o leite. Depois de perceber que era eu, acalmou-se, riu e eu ri-me com ela. Sentámo-nos e ficámos a falar o resto da noite.
Ela não vai contar como conheceu o namorado. No tempo em que ela gostava dele, e ele não sabia.
Hoje não consegue vê-lo sair de casa sem que antes ele pegue na sua nuca, por entre os seus fortes e curtos cabelos pretos para assim levar até aos lábios dele a sua pálida e inocente testa. Sempre.
Ela não vai contar como viu no seu jeito misterioso a beleza da sua autenticidade, porque não é preciso. As pestanas grandes faziam-lhe os olhos mais belos e inocentes, ela gostava.
Para ela, a sua cara sardenta nunca lhe pareceu feia, era especial. Ela não vai contar, porque não é preciso saber, que o que ela mais gostou foi da camisola que ele trazia vestida no bar onde se viram pela primeira vez.
A camisola tinha a seguinte frase, "FAZ DANÇAR A TUA ALMA". E nem ele sabia.
O amor não é cego, é esclarecedor. Ela gostava, agora ama.
