quarta-feira, 18 de abril de 2012

Caro Eu

Pudesse eu ver-te, e com alguma vergonha apresentava-me. Queria poder me definir perante ti, e explicar no que me tornei, ou tornámos, hoje. Tu que ainda não entendes bem que rumo seguir, queria te explicar como é difícil decidir. Queria poder te mostrar como viver das opções que tomo, ou tomamos, é a sensação de domínio e risco que torna a vida um jogo, no qual não terás volta a dar. Sei que tens apenas 15 anos, mas gostava de te ver e talvez tivesses algum orgulho no que me tornei, ou tornámos. Gostava de te dizer que sonhar é o que vai fazer de ti cada vez melhor, mesmo que possa parecer louco. O nosso encontro não seria para te salvar de mal nenhum, acredita. Estou, ou estamos, muito bem. Não mais queria senão contar-te como tem sido a nossa vida. Sim a nossa. Fiz o melhor que pude, mas às vezes acho que te desiludo, e anseio que a tua ingenuidade solte palavras que descrevam os sonhos que às vezes me esqueço que sonhámos. Juro, que recentemente tenho dado mais atenção a tudo o que um dia planeamos fazer, que tanto nos ocupava e nos fez passar horas em mundos fechados, só nossos. Gostava de estar perante ti, humilde, e perceber que cresci. Perceber que tu é que estás correcto. Provavelmente não ias dar valor, és muito novo, e conheço-te bem para saber que me ias olhar acautelado, mas o facto de me lembrar de ti, só por si é um gesto grande. Eu respeito tudo o que um dia pusemos na cabeça e determinantemente concluímos que não podia ser diferente. E se o fiz diferente, desculpa. Mas este gesto, este meu respeito por ti, significa que deves continuar a ser assim. E não faças diferente, como eu fiz. Se pudesse dir-te-ia para, aqui e ali, seguires o nosso plano. Tenho saudades tuas. Gostava de te dizer para não te preocupares, que não engordámos, nem estamos em vias de ser careca, para já. Em geral temos sorte. As coisas, às vezes, caiem-nos no colo, só não esperes ganhar no jogo. Nisso sim, temos azar. Meu caro Eu, se te pudesse ver dir-te-ia tudo isto com alguma vergonha e humildade, já o disse, por saber que és mais puro e seguro que eu. Na despedida, já sei que me ias estender a mão, tímido e com medo de abraçar um homem de barba, mas eu de qualquer modo ia te roubar um abraço, sentido, para me lembrar como é importante saber encarar o que fomos um dia. E claro, tu dirias Adeus, distante, desconfiado – espero que nunca desiludido – mas eu, com o respeito que te tenho, diria Obrigado por tudo.