segunda-feira, 20 de junho de 2011

Parte III


A campainha tocou. Federico na cama a ouvir a chuva forte lá fora, pouca vontade tinha de se levantar, mas assim fez e arrastando-se por ali fora, descendo as escadas e esfregando os olhos de sono, chegou à porta e abriu-a.

- Primo. Há quanto tempo! Venham para cá esses braços seu desnaturado.

Alessandro havia chegado. Conhecido na família por ser o intelectual e viajado, adora sentar-se e contar todas as suas viagens de ponta a ponta. Tinha-lhe chegado a noticia que o primo recentemente tinha dedicado a sua vida à música e corrido o mundo com uma viola nas costas. Alessandro, ficou a saber que Federico estava em Inglaterra e decidiu aproveitar para o visitar. Contou que a sua vida andava numa roda viva desde que se dedicou à musica. Federico não ficou propriamente feliz com a surpresa. Apesar de ter o problema da solidão resolvido, não tinha paciência para as conversas intermináveis de Alessandro.

- Não te preocupes primo, enquanto aqui estiver compro o que quiseres para comer e para manutenção da casa. E acima de tudo faço-te companhia. Vai ser divertido.

- Sem dúvida. Sempre gostei da tua companhia… primo. – Se mentir fosse um crime, Federico teria de ser preso naquele instante.

Decidiram sair para comprar qualquer coisa para comer. Caía muita chuva e alguém chamou Federico.

- Federico! Federico! – Era o vizinho Tom Sachs – Pode emprestar-me um pouco de sal? É que o meu acabou e...

- Claro Tom, mas vou com o meu primo Alessandro fazer umas compras e já lho dou quando voltar, de acordo?

- Muito prazer Alessandro. Ora essa Federico, tome o seu tempo. Esperarei pelo sal e a sopa também esperará. – E volta para casa a correr, protegendo a cabeça da chuva com o casaco.

Dotado de uma forte capacidade intuitiva, segundo ele mesmo, Alessandro confessa a Federico não ter gostado de Tom, pareceu-lhe falso. Federico tinha criado uma boa amizade com Tom, mas em vez de defender o vizinho, decidiu ignorar o primo. Que sabia ele? Nunca tinha estado com Tom, e aquele cabelo de Alessandro escorrido da água da chuva só lhe pareceu ainda mais ridículo do que já estava, e os óculos redondos pareceram mais esquisitos do que já eram. Não gostou da observação do seu primo sobre a pessoa mais simpática naquela rua.

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