segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

o dia não começou bem

Estou num quarto qualquer. Numa cama qualquer. Sentado. São horas para qualquer um dormir. Não eu. Não durmo enquanto não perceber este dia que se passou. Não durmo enquanto não perceber a razão de ter fechado esta portada da janela com a força de todo um dia. Antes de fechá-la entravam luzes falsas, que certamente me iluminavam a cara e se misturavam com a escuridão da insistente madrugada. Olho para a portada e das frestas não vem nada. Nada. Um constante nada. Estou a rebobinar o meu dia para tentar entender esta teimosia de ficar assim. Já ouvi pessoas a dizer sabiamente, os dias são para aproveitar, temos de viver cada dia como se fosse o último da nossa vida. Pois se este fosse o último, seria uma bela merda de último dia. Parece que fui obrigado a levantar-me da cama, onde estava tão bem entregue aos meus fieis lençóis. Costumo ouvir música enquanto tomo banho, mas hoje, neste dia de merda, nem se quer me dei ao trabalho. Almocei com familiares. Tão presentes e disponíveis, como sempre, ali, para todos e para cada um. Eu, impaciente e intolerante, não aproveitei nem agradeci o constante amor que me era dado de bandeja. Já vi nuvens negras, mas nenhuma tão absurda como a que pairava hoje sobre mim. Era negra, pluviosa e tempestuosa. Num dia tão claro. Não percebo porque estou aqui, sentado nesta cama, sem conseguir dar sentido a este dia. Hoje fui indelicado com uma pessoa. Uma pessoa desconhecida. Mesmo que a razão me acompanhe, não existe razão que justifique a prepotência. Não sou. Acredito que não sou, mas fui prepotente. Essa pessoa não saberá, mas peço-lhe desculpa. Não pedi quando devia, mas peço agora. Mais para mim, é verdade. Mas peço. Desculpe por ter sido prepotente. A razão é insignificante perante a prepotência. Desculpe. Queria pacientemente explicar que este dia não me define. Estou, sei lá eu bem como. Estou virado do avesso, dizem. Acordei do lado esquerdo da cama. Não sei. Muitas vezes esqueço-me do que realmente me faz ser um homem paciente e tolerante. Simpático e brando. Hoje senti que ando constantemente de mãos dadas com o pior de mim. Acredito que quem marca o passo é meu melhor. Mas não sei quando é que o outro prepotente de merda vai dar mais dois passos que eu. Não sei o que me balança. Mas agora aqui sentado, acho que percebi.

O dia não começou bem.

Há dois anos tive o privilégio de cruzar a minha vida com uma das pessoas mais sensatas, inteligentes e humanas que já conheci. Tão diferente de mim. Tão longe de todos os pontos onde firme me encontro. Uma total utopia enquanto pessoa. Como qualquer belo horizonte impossível de alcançar. Hoje em dia surge em mim apenas como uma ideia de algo, pouco concreto, mas belo. Houve um dia que essa pessoa me disse, vou partir. Não, não morreu. Mas foi embora. Definitivamente. O que é estranho, porque deixou uma marca permanente, eterna como o tempo, tanto que nem o tempo faz passar ou pensa em apagar. Nunca mais a vi. Nunca mais lhe falei. No último dia que os meus braços tiveram a oportunidade de embrulhá-la num eterno abraço, essa pessoa deu-me um fio. No último dia que a minha mão teve a oportunidade de sentir o calor do seu vermelho rosto, essa pessoa deu-me um fio. Guarda-o, usa-o, pensa em mim e podes ter a certeza que vou pensar muito em ti, disse. Passaram dois anos. Nos primeiros tempos, depois da penosa despedida, usei-o constantemente. Não usei como fio, mas como pulseira, dando duas voltas ao pulso esquerdo. Um fio castanho, fino, de uma corda frágil, com uma pequena figura em madeira. Evitei usá-lo no banho, para preservá-lo o máximo possível, evitava sempre o contacto com a água. Praia, lavar a loiça. Tirava e voltava a colocá-lo. Duas voltas ao pulso esquerdo. Dois anos. Sempre a tirá-lo e a colocá-lo. Em dois anos, acompanhou-me em todos os momentos que me consigo lembrar. Chegou a um ponto que se por algum acaso me esquecia de colocá-lo, sentia-me praticamente nu. Não uso relógio. Nem perfume. O fio nunca foi um adereço estético ou de vaidade. Era muito mais que isso. Fazia parte do meu dia. Eu apertava-o e às vezes beijava-o, agradecendo coisas boas que me aconteciam. Muitas vezes atrapalhava-me em situações banais como conduzir ou cozinhar. Estava um pouco largo, mesmo dando as duas voltas ao pulso, estava largo. Hoje de manhã, o dia não começou bem. Ao acordar, levantei-me da cama e fui buscar à mesa de cabeceira o meu fio. O mesmo de sempre, pus o fio no pulso esquerdo e ia dar as duas voltas. Ao dar a segunda volta, de cansaço, o fio partiu-se. Fez um som ao quebrar-se. Cada fibra que unia aquela pequena corda reproduziu um lento som de abandono. Não aguento mais, disse-me. Um pequeno fio partiu-se no meu pulso. Um pequeno fio partiu-se no meu pulso e teve a capacidade de me deixar assim. Paralisado. Em silêncio. Silêncio. Silêncio. Não sou supersticioso. Mas. Mas. Mas ao sentir aquele fio, tão companheiro, partir-se assim, tão frágil, tão cansado, senti-me sozinho. Como se essa pessoa de alguma forma me tivesse esquecido. Já não pensa mais em mim, cismei. É o que isto significa. Senti-me desprotegido, fraco.

O dia não começou bem.

Agora, sentado aqui nesta cama, penso sobre o meu dia e entendo agora que esta madrugada não vai ficar melhor. Não basta dar um nó nas pontas quebradas do fio. Não se remenda assim um acontecimento. Prefiro aceitar que cada coisa tem o seu tempo. O meu dia foi o perpétuo reflexo do apego. Nada é meu, tudo um dia parte. Sentado aqui nesta cama, dentro deste quarto, sei que debaixo dos meus pés descalços tenho um tapete que me aquece, que me separa do frio que está o chão. Estou feliz por este tapete, por este quarto, por esta cama. Depois vou dormir. Amanhã é outro dia.


04.01.2016

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Notas

   Nota a ausência quem te nota como amigo

                                           nota-se satisfeito quem tem nota gorda

                                         a nota que compra o chão mas não compra o tempo

     notasse o homem que a nota que o notifica

 não envaidece aquele que nota a dor do amigo de modo a ser notabilizado

                    note que cada nota não tem nota sem que ninguém anote

.aqui, anoto eu e notas tu, amigO

Maravilhosa Cidade

Não era apenas o mar, pudessem as mãos dela tocar naquele escuro céu, vaidoso de estrelas, ela tocaria sem pensar, tal como sem pensar entrou no mar. Ele também entrou. Pudesse ele tocar a lua, posada com importância no céu dela, aquele céu, dos dois. A ânsia de tocar, ser dono da possibilidade infinita do toque, de possuir tudo o que cada momento generosamente oferece. Para ela o céu seria seu. Sim, pudesse ser e seria. Esse céu numa extensão constante do mar e de cada onda tímida que dele vinha, seria dela. Dele aquela lua seria, não estivesse ela teimosamente presa naquele lugar tão habitual e confortável no céu. Ele e ela queriam possuir tudo aquilo. Por momentos, conseguiram. Mas é aquela maravilhosa cidade que possui tudo aquilo. Aquela cidade concedeu-lhes uns pequenos segundos de deleite. Ele e ela aceitaram. 

O frio era o convite do óbvio. Era irrecusável. Óbvio. Foi convite da maravilhosa cidade. Cedência deles. Concordância conjunta, passo a passo na areia, a bandeja que serve essa água, que ninguém bebe. Devora. Quantas musicas já foram escritas nessa água que é de todos? Tantas. Nesse momento era deles, só dele e dela. 

Eles conheceram-se melhor nessa noite. Caíram inteiros naquele passeio. Caminharam. Até à praia. Uma praia de todos. Caíram naquela cidade. Caíram para se conhecer. Duas folhas amarelas de outono caídas nos pés da observadora árvore ancestral. Sábia. Duas folhas de um verão no cimo, encontram-se igualmente amarelas, juntas, em baixo. Sorte do vento que desenhou a sua balançada descida e as juntou. Assim os vêem. Os outros. Juntos.

Claro que não. Não planearam entrar. Mas entraram. Entraram no mar. Mar frio. Com vontade. Não houvesse casas e lá ficavam. Sim, ficavam. Não houvesse aviões e lá estariam ainda. Sim, ainda. Não houvesse saudade e lá permaneciam até agora, ele e ela. Sim, ele e ela. Bastou aquele momento cedido pela maravilhosa cidade para nele permanecerem seguros, gratos.

Cidade - maravilhosa de fama - pouco lhes cedes além do que já existe. Afinidade. Ele e ela. Afinidade é a palavra que faz com que mãos se toquem sem ser de facto preciso. No escuro desigual dessa cidade de marés e músicas várias, eram as luzes das casinhas injustiçadas no alto desprezado daquele eterno monte - feito quase de propósito - que os fazia olhar timidamente para o mesmo lugar. Um olhar que percorria toda a praia. Nesse lugar eles tocaram. Não fisicamente. Nem entre si. Dentro daquela água tudo estava em toque. Não fossem as casas, os aviões, as saudades e ainda lá estariam, ele e ela. Ela sorri, ele acena. O mar daquela cidade será a única e a maravilhosa testemunha.

decidir

já olhaste fixamente para o ponteiro dos segundos de um relógio? não sentes angústia, um nó no peito? sentir que não pára, saber que não tem como parar, não pode parar. mas tu queres que pare. espera. espera. espera. espera. espera. espera. não aguento. preciso de mais tempo. preciso pedir ao tempo que me dê mais tempo para pensar. preciso decidir. não é fácil decidir. é tudo muito curto e demasiado definitivo. como é que o tempo não pára? 

dava tanto jeito que parasse.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

comigo trago o mar
aqui justificam-se os fumos
     alto
do        o humano fez posar
nem ventos trazem sumos
         alto
lá do        vem a nuvem ver
porque quem vê
não olha, não crê
com os olhos desvia o saber
pobre ser

num ónibus qualquer em São Paulo

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Terra de Deitados

“Numa terra de deitados o que precisa ser desenterrado?”

Aqui jaz “alguém”.

Verbo Jazer, provem do latim Jacere, “estar deitado”. Jazer, segundo um dicionário de língua portuguesa, significa estar deitado, estendido, estar morto ou como morto. Atenção, como morto. Significa também, estar sepultado, estar situado, localizado, imóvel, quieto, sereno. Atenção, sereno. Por alguma razão, e nada é por acaso, o verbo jazer é o verbo utilizado para a inscrição da lapide do morto no cemitério. Porquê? Um cemitério é uma enorme metáfora sobre a vida na cidade. E a ironia é que o verbo jazer nos ajuda a entender essa metáfora. Existe no cemitério uma condição semelhante entre os enterrados. A morte. E a condição de estar vivo parece ser também a semelhança em todos os que se movem na cidade. Mas na verdade, quem está deitado, de pé, morto ou vivo?

Na cidade não é preciso morrer para estar deitado, estendido, situado, localizado, imóvel, quieto, sereno ou como morto. É possível jazer mais na cidade do que no cemitério. Tanto na cidade como no cemitério existem diferenciais, existem campas com mais flores, mais altas, mais caras, na cidade existem pessoas mais amadas que outras, mais ricas que outras. Apesar de diferenças aparentes, a condição dos indivíduos em ambas as situações é semelhante. Morto ou vivo. Nada nos distingue, a não ser a nossa história. O que nos torna únicos é a nossa história, seja vivo, seja morto.

A terra dos deitados não distingue cemitério de cidade, é tudo uma só. Aqui jaz o morto e aqui jaz o vivo. Todo o mundo jaz. A nossa condição é eternamente semelhante. Ser humano. Com a capacidade de deitar – jazer – figurativa e literalmente. O que precisa ser desenterrado é o que nos torna únicos, a nossa história. Está na nossa história o que prova que um dia andámos de pé. Porque muito provavelmente vamos jazer para sempre, serenos.

Anita Vai a Todas

Tens de te levantar, Anita. Tão cedo, ainda o acordar parece um sonho envolto em lençóis com calor de uma noite descansada. Preguiça. Levanta-te Anita, não te volto a avisar. A voz de sempre. Mãe. Uma voz de todos os dias, remota, distante, pequena, que só se torna grande quando essa voz lhe pega por um braço e exige uma resposta. Aí sim, sai uma resposta. Pronto, já vou. Um espreguiçar que demora mais que o tempo. Fecha o punho e esfrega o olho esquerdo com raiva. O direito, semiaberto e rabugento, procura as pantufas de cabeça de tigre. Foi ela que escolheu. Mais um dia de escola, mais uma manhã de rotinas. Parece que a madrugada demora em se pôr manhã. Com essa luz faz a mala, estojo, livros, cadernos, deveres, deveres, ui, esqueceu-se. O pequeno-almoço é passado em silêncio, em busca de uma boa desculpa para dar à professora. Ui, os deveres. Sempre foi boa a dar desculpas, sempre se safou. Sempre, ainda hoje. À mesa,  o sono, a preguiça, os deveres, as desculpas, perseguem-na como uma nuvem negra. Que peso. Acordas sempre de pernas para o ar, tu. Diz o pai, com um orgulho escondido. Rebiteza, era a palavra que mais ouvia, sem saber bem o que significa ou se existe sequer. Ela sabia que se portava mal, e que essa palavra soava a endiabrada. Essa ela sabia. Ainda assim sentia na voz do pai que essa palavra era articulada com ternura. O charme de menina traquina, rebiteza. Filha única. A birra termina quando encontra na escola o seu grupo de amigas, quadrilhices infantis e risinhos estridentes. Toda a tempestade que carregava consigo de casa ao carro, do carro à escola, desapareceu quando viu as outras meninas. Meninas, para serem mulheres, amigas, de pouco mais de um metro, pequenas. E os seus temas tão pequenos, em importância, quanto elas. Temas que lhes preenchem as, até aí, curtas vidas e lhes despreocupam do importante, ui, os deveres. Pois. Sala de aula. Anita, de 10 anos, conseguiu justificar à professor, de 29 anos, que não teve tempo de concluir os deveres. A de 29 revira os olhos, conhece a cantiga, mas dá-lhe a oportunidade de fazer para amanhã. A de 10 desculpa-se pelo tempo que não teve e agradece o tempo que a de 29 lhe deu. Mas a de 10, Anita, pouco sabe sobre o tempo, e se pouco sabe, muito se esquece. Lá se safou. 
Recreio, correria. Cada uma das meninas tem coisas a dizer, sobre este ou aquele rapaz. Giro. Estúpido. Lindo. Idiota. Nada mudou. Ainda hoje. Anita não encanta apenas o pai com esse charme traquina. Encanta qualquer pessoa. De resposta rápida, perspicaz, atrevida. Com esta ninguém brinca, dizem as “continas” da escola, encantadas. Apesar de não ser bonita, é bonita aos olhos de todos os que têm a oportunidade de conhecer os seus jeitos. Os rapazes, dentro da sua masculinidade pouco assertiva, acham-na irresistível. Querem apalpá-la. Correm atrás, apalpam, riem-se, comentam aos outros em segredo, riem-se. As miúdas, com a Anita, ralham, gritam, fazem queixas às “continas", mas de certo modo elas gostam. Algo que vão apenas entender anos mais tarde. Gostam dessa atenção injustificada. Apalpar o quê? Para quê? Porquê? Para eles, é fácil. Porque sim. Gostam de raparigas e confiam no instinto, mesmo que não saibam o que fazer com o rabo que apalpam. E elas, superiores, condenam tal atitude de infantil, mas cada apalpão é registado. Quem deu. A mensagem passa. 
A Anita não tem 10 anos. Já teve. Não tem mais. Está mais velha. Tem quase trinta. É assim que gosta de pensar. Apesar de estar na casa dos vinte, olha em frente com orgulho, como se fazer trinta fosse uma conquista. Está perto. A traquina ainda encanta o pai, e outros homens. É solteira, independente e não vive com medo das crises e das austeridades. Mas preocupa-se. Tem tempo para si, para as amigas, amigos e amigos. Homens. Ninguém a acorda. Acorda sozinha, porque quer, e disso sabe ela bem. Ainda bem. Acorda com a mesma preguiça, a birra eterna, com um espreguiçar tão longo como o tempo, abre a janela com o dia já feito e tão vivo,  como o céu inteiro prova. Vai ter mais umas férias merecidas, ninguém o nega. Como ela que não nega a ninguém, vai a todas. Rebiteza, não sabe parar, não há férias que a trave cá. Uma ou duas amigas disponíveis para a data e com dinheiro para acompanhar o andamento, Altas rotações. Preparativos, passar pelo sempre amigo que arranja o que é preciso. Uma erva para relaxar. Sempre. E antes de pôr o pé em qualquer avião, sempre, a casa dos pais. Passa uma tarde, um lanche, um jantar. Os cheiros de casa dão-lhe a melhor das viagens, no tempo, sem dinheiro. Onde vais agora? Não páras tu. O pai, pesado e velho, no sofá, no mesmo de sempre, com a mesma ternura de sempre, rebiteza. Alça a perna e descuida-se, sem cuidado. Culpa o feijão e as couves que a mulher pôs na sopa. Pára com isso, sempre o mesmo. Diz a mãe, que a lavar a loiça, despreocupada, apenas sorri. Anita sorri com ela. Sou praticamente uma pessoa que aqui anda. Diz Anita. O pai ri-se, nem um pouco envergonhado. Saciada do carinho quente que os pais lhe dão, sai. Amanhã,vai de férias, com as amigas, vai a todas, não pára. 

Dedicado à Rita.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

experiência

mundo vive
cheio de pressa e informação
possui inteligência pouco coração
cresce rápido diz o pai
sê juiz sê doutor
mas dinheiro não compra tempo
muito menos amor
tudo é certo e sabido
e o desconhecido?
ficou por desvendar
permite-te ser permeável
se de homem te posso chamar
algo irás encontrar
cautela com a razão
respeita a emoção
nenhuma só controla a situação

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O velho

Ele tem um novo fascínio. Mas já lá vamos. Antes existia algo nele que permanecia ignorante sobre o tempo. A idade. Não existia nele uma consciência sobre o passar das horas, dos dias, dos anos. Ele - por querer - acreditava que ficaria jovem por muito tempo. Lá está o tempo. Esse "muito tempo" para ele não tinha tempo. Falta de noção. Não era por mal, ele era assim. Ele não era o único, atenção. Todos acham que o fim é apenas uma palavra. Nunca associamos o fim ao parar de respirar, à dor, ao sofrimento, à velhice, à morte. O presente é eterno. A força, a pele, os dentes, o cabelo, são eternos. Ele pensava assim. O fim era pouco mais que uma palavra. Porém, ele mudou. O corpo foi apanhado pelo tal tempo, aquele tempo que nos faz olhar ao espelho e descobrir que certos riscos não estavam ali antes. Merda. Ele mudou mas o fim continua a ser para ele uma palavra apenas. Agora, o tempo já lhe é mais real. Corre ao nosso lado. Se estalar os dedos no intervalo de cada segundo do relógio estou fintar o ritmo do tempo, mas cada estalar de dedos repetido nunca será como o anterior. O que foi, não volta a ser. Ele começou a tomar consciência disso. Que tudo o que lhe vem ao toque pode muito bem ser a última vez que lhe toca. Espera lá. Pensou ele. Décadas. Ele já fala que fez isto e aquilo com décadas de intervalo. Mais décadas virão. Aquele verão, não foi há cinco, foi há dez. Aquela tarde junto ao lago, aquela tarde inesquecível. Ia jurar que tinha sido ontem. Foi aí que ele a beijou. Foi ontem? Não. Estúpido. Foi há dez anos. Nada o impede de morrer amanhã, mas também nada o impede de viver mais quarenta ou cinquenta anos. Pode muito bem estar no meio da sua vida. Supostamente, começa agora. Mas, espera. Se começa agora, tudo o que ele viveu toma agora uma dimensão, um volume. Ele sente uma mochila às costas, agarrada ao seu corpo só porque ele quer. Podes muito bem andar sem esse peso - larga a mochila porra - aceita caminhar mais leve. O que o apavora, agora que ele mudou e se apercebeu do tempo, é que antes ele achava que essa mochila não existia. Agora não só existe, como também se tornará ainda mais pesada. Larga. Deixa. Não. Ele gosta do que viveu. Percebe que quer continuar a enchê-la. Paixões. Amor. Jovem. Infância. Mãe. Largar? Não. Aqui nasceu o fascínio. Ele tem um novo fascínio. Ele tem um fascínio por velhos. Sim, velhos. Pessoas idosas. No tempo - lá está o tempo - em que ele era ignorante sobre o tempo - cá está o tempo - ele via um velho como uma pessoa que é velha. Pronto. Como quem vê uma mesa. Não mais que uma mesa. É mesa, foi mesa, será mesa. Um velho, era um velho. Agora, um velho - para ele - é um portador de uma mochila enorme. Ele vive fascinado sobre o que cada velho tem na sua mochila. Tudo isto parece óbvio. Mas não é. Ele tinha esta incapacidade. Não se pode - não se deve - julgar. Ele tem agora uma maior consciência sobre a existência, sobre o tempo. O fim não é mais que uma palavra. Uma vez ele viu um velho. Ele pediu. Fala-me do teu primeiro amor. Lembras-te do teu primeiro amor? O velho falou do seu primeiro amor. Ele perdeu-se nas palavras do velho, nos suspiros do velho, na boca do velho, que salivava entre detalhes íntimos. Os olhos humedecidos do velho, as rugas vincadas ao sorriso do velho. Era a cumplicidade do velho com o tempo. Ele sabe - ou ficou a saber - que tudo o que o fascina no velho só virá com o tempo. O fim - como tudo - não passa de uma palavra.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Confiei

Confiança em demasia É o ar dos sufocados Uma simples melodia De acordes desafinados Que soam em sintonia

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Caro Eu

Pudesse eu ver-te, e com alguma vergonha apresentava-me. Queria poder me definir perante ti, e explicar no que me tornei, ou tornámos, hoje. Tu que ainda não entendes bem que rumo seguir, queria te explicar como é difícil decidir. Queria poder te mostrar como viver das opções que tomo, ou tomamos, é a sensação de domínio e risco que torna a vida um jogo, no qual não terás volta a dar. Sei que tens apenas 15 anos, mas gostava de te ver e talvez tivesses algum orgulho no que me tornei, ou tornámos. Gostava de te dizer que sonhar é o que vai fazer de ti cada vez melhor, mesmo que possa parecer louco. O nosso encontro não seria para te salvar de mal nenhum, acredita. Estou, ou estamos, muito bem. Não mais queria senão contar-te como tem sido a nossa vida. Sim a nossa. Fiz o melhor que pude, mas às vezes acho que te desiludo, e anseio que a tua ingenuidade solte palavras que descrevam os sonhos que às vezes me esqueço que sonhámos. Juro, que recentemente tenho dado mais atenção a tudo o que um dia planeamos fazer, que tanto nos ocupava e nos fez passar horas em mundos fechados, só nossos. Gostava de estar perante ti, humilde, e perceber que cresci. Perceber que tu é que estás correcto. Provavelmente não ias dar valor, és muito novo, e conheço-te bem para saber que me ias olhar acautelado, mas o facto de me lembrar de ti, só por si é um gesto grande. Eu respeito tudo o que um dia pusemos na cabeça e determinantemente concluímos que não podia ser diferente. E se o fiz diferente, desculpa. Mas este gesto, este meu respeito por ti, significa que deves continuar a ser assim. E não faças diferente, como eu fiz. Se pudesse dir-te-ia para, aqui e ali, seguires o nosso plano. Tenho saudades tuas. Gostava de te dizer para não te preocupares, que não engordámos, nem estamos em vias de ser careca, para já. Em geral temos sorte. As coisas, às vezes, caiem-nos no colo, só não esperes ganhar no jogo. Nisso sim, temos azar. Meu caro Eu, se te pudesse ver dir-te-ia tudo isto com alguma vergonha e humildade, já o disse, por saber que és mais puro e seguro que eu. Na despedida, já sei que me ias estender a mão, tímido e com medo de abraçar um homem de barba, mas eu de qualquer modo ia te roubar um abraço, sentido, para me lembrar como é importante saber encarar o que fomos um dia. E claro, tu dirias Adeus, distante, desconfiado – espero que nunca desiludido – mas eu, com o respeito que te tenho, diria Obrigado por tudo.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Fixação


Nele se perde, porque nada nele conhece. Adora explorar o que de mais estranho lhe vem ao toque, e passa horas, sozinha, dentro dele. Qualquer olhar vazio, direccionado para outro qualquer momento, sem ser aquele vivido com ela, não lhe é de nada importante, porque ela já se ocupa demais com os momentos em que, por acaso, os olhos dele se encontram com os dela. Cada palavra por ele pronunciada ganha asas, solta-se pelo ar e esvoaça desordenada, e só ela tem o trabalho de as apanhar, qual contumaz caçador de borboletas. Suspira sobre o que ele diz, ainda que nenhuma palavra pose sobre ela.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Sala


Ontem ela acordou e esqueceu-se que também ele, às vezes, sabe como sorrir. Fica feliz com o que ela diz. Ele não finge. Ela rápido se lembrou. Passam-se horas, e o tempo é o que menos passa. Correm copos, fica o vinho. A noite salta na sala, a madrugada espreita pela porta. Nos olhos dela vê-se uma noite alucinante, que faz tremer o passado. O disfarce mascara-se de conversas sobre Deus. Existe sim. Não, não existe. Ela acredita, mas fé é o que lhe falta. Para ele existe apenas fé. A crença dela é pessimista. Acreditar e não ter fé, é como ter carro e andar a pé. Diz ele, e nem acredita. A madrugada entra, senta e fica. Ela esqueceu-se que ele consegue ver os pedaços dela - que ele deixou - no chão. Mesmo que não lhes dê a mão para pô-los no lugar. Ele não tem mãos firmes, ele sabe, e explica que em tudo o que agarra, lhe escapa como areia no mar. Mas sem vontade. Queria ele ser agarrado. Ela sentada, respira, aguarda. Ele tenta convencê-la que ela gosta dele, e ela fixa-se em como é chato o coração. Do pouco que resta, diz ele que já não presta. Sai. Pede ela. Mesmo que seja chato, ela quer que o coração bata. Funcione. Anseie. Caso contrário, sai. Ele fica. A manhã altiva e despreocupada, entra sem convite, para iluminar os olhos dela. Estão fechados, mas não deixam de ser do escuro penetrante, que ele elogia. Aquele escuro que tanto se molha de angustia, por saber que de si sai mais luz do que a manhã trouxe. Sai vida e essa vida preocupa. Agora sim, ele tem de sair. Ela sai com ele.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Vou II

Quem se senta comigo hoje sabe, que nada disto durará mais que hoje. É aqui. Cheguei. Gostaria de falar do inicio, mas cheguei ao fim. Em cada mão sobre o ombro, sorrio firme, agradeço. Salvo memórias nas quais sou mais um, implico com a suavidade mas de forte sobra pouco. É aqui que paro e escuto o que me dá vento, que me arrefece do quente que está este lugar. Guardo tudo meu e levo comigo o que posso. O que perdi pelo caminho encaro como oferta, de tudo aquilo que tem escolha. Escolhi oferecer-te este lado de mim. O resto deixa comigo, ainda preciso, para ser largado de bem alto e ver tudo passar, tudo aquilo que passei. Solto brilho de cada um dos olhos, desinibido. E que me desculpe a quem faço o mesmo, mas admito, é bonito. Saudades. Já as sinto.

num quarto quente no Rio de Janeiro, último dia

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Travesti


A barriga suja de uma cidade secreta
Na estação as mesmas putas baratas de sempre, junto ao bar
E os gajos sem camisa desprezam tudo o que a mãe acredita
Um maço de cigarros e um pouco de cocaína, ajuda-te a sentir menos estranho

O meu velho disse, “Ela não sai, a menos que alguém esteja junto dela”
“E ela vai brilhar, assim que pisar o risco, com as mãos amarradas à cadeira”
Eu disse, “Espalha no chão, mete um som de ruído branco, como um traveca naquela rua”

Estes parolos têm a cabeça feita num nó
Eles não sabem o que amam ou merecem receber
Provavelmente põem o isco no anzol
Sem saber que peixe gostariam de morder
Esta noite

Ir para casa em serviço
Isso é que é paz?
Dedos enfiados no sujo
E ele cospe os próprios dentes.