domingo, 28 de março de 2010

Noite


Polvorosa lentidão com gente desprendida de laços abertos, fechados em cantos de tristes vidas mal passadas. Foi onde eu estive. Fechado. Amarrado à monótona obrigação social de conviver. Porquê? Nem eu sei. Simples tentação inóspita. Nem tinha eu noção do meu visual mal formado para passar na aprovação de Deus terreno. Juntei-me na humilde tentativa de mergulhar em afogamento temporário de mágoas e desamores de uma vida, esta sim, bem passada. Não sabia bem o que procurar. Mas circulei, divaguei, balbuciei sobre prazeres que nunca provei. Típico de quem não sabe o que procura. Foi aqui que entrei, na polvorosa lentidão, repleta de gente desprendida de laços abertos. Tudo faz o que quer. Gente desprendida. No fundo, é inveja que sinto, porque os cantos tristes onde eles habitam - esses que se enchem de doces ignorâncias - são locais onde queria todo o mundo estar. Tal como eu.

quinta-feira, 25 de março de 2010


Há quem cante,

Eu grito, desafino, mas sinto.

Há quem sinta frio,

Eu aqueço o peito de vaidade, de leves pontadas de prazer quieto.

Há quem decida,

Eu sigo marcas e pegadas de anteriores aventureiros.

Há quem se molhe,

Eu seco-me no calor da inércia, contentado.

Há quem olhe,

Eu prefiro o espelho, na cegueira do mundo paralelo.

Há quem viva,

Eu também. Mas o vento em alerta de tempestade eminente toca-me. Eu congelo e permaneço igual, como eu só.

Avô, ele existe?

Sim minha querida, dentro de cada um de nós. Só tu o libertas, só tu o deixas crescer. Não o deixes viver num simples sonho de sesta. Dá-lhe espaço… deixa que ele urja num sonho maior que ele, num sonho profundo de tarde de domingo. Sem fim. Ele ganha vida, se tu assim o decides.

Ele fala comigo. Ele ouve-me?

Ouve sim minha querida, se em silêncio gritares baixinho. Ele sente o timbre, o som, a melodia, tudo completo. Ânsia e desejo. Se o queres, ele ouve. Mas antes escuta, entende a ensurdecedora prosa que te espalha no ouvido. Ele precisa de ti.

Avô, vou conseguir chegar até ele?

Não sei minha querida. Mas dorme. Dorme e sonha sem parar. Cria os mares mais azuis e as luas mais prateadas. As flores cheiram ao que tu queres. Os ventos sopram com a violência e direcção que tu lhes dás. Sonhar toca no medo de quem não quer tocar no fundo. Ele. Vais encontrá-lo. Só não desistas.

ele não é Deus