segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

o dia não começou bem

Estou num quarto qualquer. Numa cama qualquer. Sentado. São horas para qualquer um dormir. Não eu. Não durmo enquanto não perceber este dia que se passou. Não durmo enquanto não perceber a razão de ter fechado esta portada da janela com a força de todo um dia. Antes de fechá-la entravam luzes falsas, que certamente me iluminavam a cara e se misturavam com a escuridão da insistente madrugada. Olho para a portada e das frestas não vem nada. Nada. Um constante nada. Estou a rebobinar o meu dia para tentar entender esta teimosia de ficar assim. Já ouvi pessoas a dizer sabiamente, os dias são para aproveitar, temos de viver cada dia como se fosse o último da nossa vida. Pois se este fosse o último, seria uma bela merda de último dia. Parece que fui obrigado a levantar-me da cama, onde estava tão bem entregue aos meus fieis lençóis. Costumo ouvir música enquanto tomo banho, mas hoje, neste dia de merda, nem se quer me dei ao trabalho. Almocei com familiares. Tão presentes e disponíveis, como sempre, ali, para todos e para cada um. Eu, impaciente e intolerante, não aproveitei nem agradeci o constante amor que me era dado de bandeja. Já vi nuvens negras, mas nenhuma tão absurda como a que pairava hoje sobre mim. Era negra, pluviosa e tempestuosa. Num dia tão claro. Não percebo porque estou aqui, sentado nesta cama, sem conseguir dar sentido a este dia. Hoje fui indelicado com uma pessoa. Uma pessoa desconhecida. Mesmo que a razão me acompanhe, não existe razão que justifique a prepotência. Não sou. Acredito que não sou, mas fui prepotente. Essa pessoa não saberá, mas peço-lhe desculpa. Não pedi quando devia, mas peço agora. Mais para mim, é verdade. Mas peço. Desculpe por ter sido prepotente. A razão é insignificante perante a prepotência. Desculpe. Queria pacientemente explicar que este dia não me define. Estou, sei lá eu bem como. Estou virado do avesso, dizem. Acordei do lado esquerdo da cama. Não sei. Muitas vezes esqueço-me do que realmente me faz ser um homem paciente e tolerante. Simpático e brando. Hoje senti que ando constantemente de mãos dadas com o pior de mim. Acredito que quem marca o passo é meu melhor. Mas não sei quando é que o outro prepotente de merda vai dar mais dois passos que eu. Não sei o que me balança. Mas agora aqui sentado, acho que percebi.

O dia não começou bem.

Há dois anos tive o privilégio de cruzar a minha vida com uma das pessoas mais sensatas, inteligentes e humanas que já conheci. Tão diferente de mim. Tão longe de todos os pontos onde firme me encontro. Uma total utopia enquanto pessoa. Como qualquer belo horizonte impossível de alcançar. Hoje em dia surge em mim apenas como uma ideia de algo, pouco concreto, mas belo. Houve um dia que essa pessoa me disse, vou partir. Não, não morreu. Mas foi embora. Definitivamente. O que é estranho, porque deixou uma marca permanente, eterna como o tempo, tanto que nem o tempo faz passar ou pensa em apagar. Nunca mais a vi. Nunca mais lhe falei. No último dia que os meus braços tiveram a oportunidade de embrulhá-la num eterno abraço, essa pessoa deu-me um fio. No último dia que a minha mão teve a oportunidade de sentir o calor do seu vermelho rosto, essa pessoa deu-me um fio. Guarda-o, usa-o, pensa em mim e podes ter a certeza que vou pensar muito em ti, disse. Passaram dois anos. Nos primeiros tempos, depois da penosa despedida, usei-o constantemente. Não usei como fio, mas como pulseira, dando duas voltas ao pulso esquerdo. Um fio castanho, fino, de uma corda frágil, com uma pequena figura em madeira. Evitei usá-lo no banho, para preservá-lo o máximo possível, evitava sempre o contacto com a água. Praia, lavar a loiça. Tirava e voltava a colocá-lo. Duas voltas ao pulso esquerdo. Dois anos. Sempre a tirá-lo e a colocá-lo. Em dois anos, acompanhou-me em todos os momentos que me consigo lembrar. Chegou a um ponto que se por algum acaso me esquecia de colocá-lo, sentia-me praticamente nu. Não uso relógio. Nem perfume. O fio nunca foi um adereço estético ou de vaidade. Era muito mais que isso. Fazia parte do meu dia. Eu apertava-o e às vezes beijava-o, agradecendo coisas boas que me aconteciam. Muitas vezes atrapalhava-me em situações banais como conduzir ou cozinhar. Estava um pouco largo, mesmo dando as duas voltas ao pulso, estava largo. Hoje de manhã, o dia não começou bem. Ao acordar, levantei-me da cama e fui buscar à mesa de cabeceira o meu fio. O mesmo de sempre, pus o fio no pulso esquerdo e ia dar as duas voltas. Ao dar a segunda volta, de cansaço, o fio partiu-se. Fez um som ao quebrar-se. Cada fibra que unia aquela pequena corda reproduziu um lento som de abandono. Não aguento mais, disse-me. Um pequeno fio partiu-se no meu pulso. Um pequeno fio partiu-se no meu pulso e teve a capacidade de me deixar assim. Paralisado. Em silêncio. Silêncio. Silêncio. Não sou supersticioso. Mas. Mas. Mas ao sentir aquele fio, tão companheiro, partir-se assim, tão frágil, tão cansado, senti-me sozinho. Como se essa pessoa de alguma forma me tivesse esquecido. Já não pensa mais em mim, cismei. É o que isto significa. Senti-me desprotegido, fraco.

O dia não começou bem.

Agora, sentado aqui nesta cama, penso sobre o meu dia e entendo agora que esta madrugada não vai ficar melhor. Não basta dar um nó nas pontas quebradas do fio. Não se remenda assim um acontecimento. Prefiro aceitar que cada coisa tem o seu tempo. O meu dia foi o perpétuo reflexo do apego. Nada é meu, tudo um dia parte. Sentado aqui nesta cama, dentro deste quarto, sei que debaixo dos meus pés descalços tenho um tapete que me aquece, que me separa do frio que está o chão. Estou feliz por este tapete, por este quarto, por esta cama. Depois vou dormir. Amanhã é outro dia.


04.01.2016