Nota a ausência quem te nota como amigo
nota-se satisfeito quem tem nota gorda
a nota que compra o chão mas não compra o tempo
notasse o homem que a nota que o notifica
não envaidece aquele que nota a dor do amigo de modo a ser notabilizado
note que cada nota não tem nota sem que ninguém anote
.aqui, anoto eu e notas tu, amigO
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Maravilhosa Cidade
Não era apenas o mar, pudessem as mãos dela tocar naquele escuro céu, vaidoso de estrelas, ela tocaria sem pensar, tal como sem pensar entrou no mar. Ele também entrou. Pudesse ele tocar a lua, posada com importância no céu dela, aquele céu, dos dois. A ânsia de tocar, ser dono da possibilidade infinita do toque, de possuir tudo o que cada momento generosamente oferece. Para ela o céu seria seu. Sim, pudesse ser e seria. Esse céu numa extensão constante do mar e de cada onda tímida que dele vinha, seria dela. Dele aquela lua seria, não estivesse ela teimosamente presa naquele lugar tão habitual e confortável no céu. Ele e ela queriam possuir tudo aquilo. Por momentos, conseguiram. Mas é aquela maravilhosa cidade que possui tudo aquilo. Aquela cidade concedeu-lhes uns pequenos segundos de deleite. Ele e ela aceitaram.
O frio era o convite do óbvio. Era irrecusável. Óbvio. Foi convite da maravilhosa cidade. Cedência deles. Concordância conjunta, passo a passo na areia, a bandeja que serve essa água, que ninguém bebe. Devora. Quantas musicas já foram escritas nessa água que é de todos? Tantas. Nesse momento era deles, só dele e dela.
Eles conheceram-se melhor nessa noite. Caíram inteiros naquele passeio. Caminharam. Até à praia. Uma praia de todos. Caíram naquela cidade. Caíram para se conhecer. Duas folhas amarelas de outono caídas nos pés da observadora árvore ancestral. Sábia. Duas folhas de um verão no cimo, encontram-se igualmente amarelas, juntas, em baixo. Sorte do vento que desenhou a sua balançada descida e as juntou. Assim os vêem. Os outros. Juntos.
Claro que não. Não planearam entrar. Mas entraram. Entraram no mar. Mar frio. Com vontade. Não houvesse casas e lá ficavam. Sim, ficavam. Não houvesse aviões e lá estariam ainda. Sim, ainda. Não houvesse saudade e lá permaneciam até agora, ele e ela. Sim, ele e ela. Bastou aquele momento cedido pela maravilhosa cidade para nele permanecerem seguros, gratos.
Cidade - maravilhosa de fama - pouco lhes cedes além do que já existe. Afinidade. Ele e ela. Afinidade é a palavra que faz com que mãos se toquem sem ser de facto preciso. No escuro desigual dessa cidade de marés e músicas várias, eram as luzes das casinhas injustiçadas no alto desprezado daquele eterno monte - feito quase de propósito - que os fazia olhar timidamente para o mesmo lugar. Um olhar que percorria toda a praia. Nesse lugar eles tocaram. Não fisicamente. Nem entre si. Dentro daquela água tudo estava em toque. Não fossem as casas, os aviões, as saudades e ainda lá estariam, ele e ela. Ela sorri, ele acena. O mar daquela cidade será a única e a maravilhosa testemunha.
decidir
já olhaste fixamente para o ponteiro dos segundos de um relógio? não sentes angústia, um nó no peito? sentir que não pára, saber que não tem como parar, não pode parar. mas tu queres que pare. espera. espera. espera. espera. espera. espera. não aguento. preciso de mais tempo. preciso pedir ao tempo que me dê mais tempo para pensar. preciso decidir. não é fácil decidir. é tudo muito curto e demasiado definitivo. como é que o tempo não pára?
dava tanto jeito que parasse.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
Terra de Deitados
“Numa terra de deitados o que precisa ser desenterrado?”
Aqui jaz “alguém”.
Verbo Jazer, provem do latim Jacere, “estar deitado”. Jazer, segundo um dicionário de língua portuguesa, significa estar deitado, estendido, estar morto ou como morto. Atenção, como morto. Significa também, estar sepultado, estar situado, localizado, imóvel, quieto, sereno. Atenção, sereno. Por alguma razão, e nada é por acaso, o verbo jazer é o verbo utilizado para a inscrição da lapide do morto no cemitério. Porquê? Um cemitério é uma enorme metáfora sobre a vida na cidade. E a ironia é que o verbo jazer nos ajuda a entender essa metáfora. Existe no cemitério uma condição semelhante entre os enterrados. A morte. E a condição de estar vivo parece ser também a semelhança em todos os que se movem na cidade. Mas na verdade, quem está deitado, de pé, morto ou vivo?
Na cidade não é preciso morrer para estar deitado, estendido, situado, localizado, imóvel, quieto, sereno ou como morto. É possível jazer mais na cidade do que no cemitério. Tanto na cidade como no cemitério existem diferenciais, existem campas com mais flores, mais altas, mais caras, na cidade existem pessoas mais amadas que outras, mais ricas que outras. Apesar de diferenças aparentes, a condição dos indivíduos em ambas as situações é semelhante. Morto ou vivo. Nada nos distingue, a não ser a nossa história. O que nos torna únicos é a nossa história, seja vivo, seja morto.
A terra dos deitados não distingue cemitério de cidade, é tudo uma só. Aqui jaz o morto e aqui jaz o vivo. Todo o mundo jaz. A nossa condição é eternamente semelhante. Ser humano. Com a capacidade de deitar – jazer – figurativa e literalmente. O que precisa ser desenterrado é o que nos torna únicos, a nossa história. Está na nossa história o que prova que um dia andámos de pé. Porque muito provavelmente vamos jazer para sempre, serenos.
Anita Vai a Todas
Tens de te levantar, Anita. Tão cedo, ainda o acordar parece um sonho envolto em lençóis com calor de uma noite descansada. Preguiça. Levanta-te Anita, não te volto a avisar. A voz de sempre. Mãe. Uma voz de todos os dias, remota, distante, pequena, que só se torna grande quando essa voz lhe pega por um braço e exige uma resposta. Aí sim, sai uma resposta. Pronto, já vou. Um espreguiçar que demora mais que o tempo. Fecha o punho e esfrega o olho esquerdo com raiva. O direito, semiaberto e rabugento, procura as pantufas de cabeça de tigre. Foi ela que escolheu. Mais um dia de escola, mais uma manhã de rotinas. Parece que a madrugada demora em se pôr manhã. Com essa luz faz a mala, estojo, livros, cadernos, deveres, deveres, ui, esqueceu-se. O pequeno-almoço é passado em silêncio, em busca de uma boa desculpa para dar à professora. Ui, os deveres. Sempre foi boa a dar desculpas, sempre se safou. Sempre, ainda hoje. À mesa, o sono, a preguiça, os deveres, as desculpas, perseguem-na como uma nuvem negra. Que peso. Acordas sempre de pernas para o ar, tu. Diz o pai, com um orgulho escondido. Rebiteza, era a palavra que mais ouvia, sem saber bem o que significa ou se existe sequer. Ela sabia que se portava mal, e que essa palavra soava a endiabrada. Essa ela sabia. Ainda assim sentia na voz do pai que essa palavra era articulada com ternura. O charme de menina traquina, rebiteza. Filha única. A birra termina quando encontra na escola o seu grupo de amigas, quadrilhices infantis e risinhos estridentes. Toda a tempestade que carregava consigo de casa ao carro, do carro à escola, desapareceu quando viu as outras meninas. Meninas, para serem mulheres, amigas, de pouco mais de um metro, pequenas. E os seus temas tão pequenos, em importância, quanto elas. Temas que lhes preenchem as, até aí, curtas vidas e lhes despreocupam do importante, ui, os deveres. Pois. Sala de aula. Anita, de 10 anos, conseguiu justificar à professor, de 29 anos, que não teve tempo de concluir os deveres. A de 29 revira os olhos, conhece a cantiga, mas dá-lhe a oportunidade de fazer para amanhã. A de 10 desculpa-se pelo tempo que não teve e agradece o tempo que a de 29 lhe deu. Mas a de 10, Anita, pouco sabe sobre o tempo, e se pouco sabe, muito se esquece. Lá se safou.
Recreio, correria. Cada uma das meninas tem coisas a dizer, sobre este ou aquele rapaz. Giro. Estúpido. Lindo. Idiota. Nada mudou. Ainda hoje. Anita não encanta apenas o pai com esse charme traquina. Encanta qualquer pessoa. De resposta rápida, perspicaz, atrevida. Com esta ninguém brinca, dizem as “continas” da escola, encantadas. Apesar de não ser bonita, é bonita aos olhos de todos os que têm a oportunidade de conhecer os seus jeitos. Os rapazes, dentro da sua masculinidade pouco assertiva, acham-na irresistível. Querem apalpá-la. Correm atrás, apalpam, riem-se, comentam aos outros em segredo, riem-se. As miúdas, com a Anita, ralham, gritam, fazem queixas às “continas", mas de certo modo elas gostam. Algo que vão apenas entender anos mais tarde. Gostam dessa atenção injustificada. Apalpar o quê? Para quê? Porquê? Para eles, é fácil. Porque sim. Gostam de raparigas e confiam no instinto, mesmo que não saibam o que fazer com o rabo que apalpam. E elas, superiores, condenam tal atitude de infantil, mas cada apalpão é registado. Quem deu. A mensagem passa.
A Anita não tem 10 anos. Já teve. Não tem mais. Está mais velha. Tem quase trinta. É assim que gosta de pensar. Apesar de estar na casa dos vinte, olha em frente com orgulho, como se fazer trinta fosse uma conquista. Está perto. A traquina ainda encanta o pai, e outros homens. É solteira, independente e não vive com medo das crises e das austeridades. Mas preocupa-se. Tem tempo para si, para as amigas, amigos e amigos. Homens. Ninguém a acorda. Acorda sozinha, porque quer, e disso sabe ela bem. Ainda bem. Acorda com a mesma preguiça, a birra eterna, com um espreguiçar tão longo como o tempo, abre a janela com o dia já feito e tão vivo, como o céu inteiro prova. Vai ter mais umas férias merecidas, ninguém o nega. Como ela que não nega a ninguém, vai a todas. Rebiteza, não sabe parar, não há férias que a trave cá. Uma ou duas amigas disponíveis para a data e com dinheiro para acompanhar o andamento, Altas rotações. Preparativos, passar pelo sempre amigo que arranja o que é preciso. Uma erva para relaxar. Sempre. E antes de pôr o pé em qualquer avião, sempre, a casa dos pais. Passa uma tarde, um lanche, um jantar. Os cheiros de casa dão-lhe a melhor das viagens, no tempo, sem dinheiro. Onde vais agora? Não páras tu. O pai, pesado e velho, no sofá, no mesmo de sempre, com a mesma ternura de sempre, rebiteza. Alça a perna e descuida-se, sem cuidado. Culpa o feijão e as couves que a mulher pôs na sopa. Pára com isso, sempre o mesmo. Diz a mãe, que a lavar a loiça, despreocupada, apenas sorri. Anita sorri com ela. Sou praticamente uma pessoa que aqui anda. Diz Anita. O pai ri-se, nem um pouco envergonhado. Saciada do carinho quente que os pais lhe dão, sai. Amanhã,vai de férias, com as amigas, vai a todas, não pára.
Dedicado à Rita.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
experiência
mundo vive
cheio de pressa e informação
possui inteligência pouco coração
cresce rápido diz o pai
sê juiz sê doutor
mas dinheiro não compra tempo
muito menos amor
tudo é certo e sabido
e o desconhecido?
ficou por desvendar
permite-te ser permeável
se de homem te posso chamar
algo irás encontrar
cautela com a razão
respeita a emoção
nenhuma só controla a situação
cheio de pressa e informação
possui inteligência pouco coração
cresce rápido diz o pai
sê juiz sê doutor
mas dinheiro não compra tempo
muito menos amor
tudo é certo e sabido
e o desconhecido?
ficou por desvendar
permite-te ser permeável
se de homem te posso chamar
algo irás encontrar
cautela com a razão
respeita a emoção
nenhuma só controla a situação
quinta-feira, 23 de julho de 2015
O velho
Ele tem um novo fascínio. Mas já lá vamos. Antes existia algo nele que permanecia ignorante sobre o tempo. A idade. Não existia nele uma consciência sobre o passar das horas, dos dias, dos anos. Ele - por querer - acreditava que ficaria jovem por muito tempo. Lá está o tempo. Esse "muito tempo" para ele não tinha tempo. Falta de noção. Não era por mal, ele era assim. Ele não era o único, atenção. Todos acham que o fim é apenas uma palavra. Nunca associamos o fim ao parar de respirar, à dor, ao sofrimento, à velhice, à morte. O presente é eterno. A força, a pele, os dentes, o cabelo, são eternos. Ele pensava assim. O fim era pouco mais que uma palavra. Porém, ele mudou. O corpo foi apanhado pelo tal tempo, aquele tempo que nos faz olhar ao espelho e descobrir que certos riscos não estavam ali antes. Merda. Ele mudou mas o fim continua a ser para ele uma palavra apenas. Agora, o tempo já lhe é mais real. Corre ao nosso lado. Se estalar os dedos no intervalo de cada segundo do relógio estou fintar o ritmo do tempo, mas cada estalar de dedos repetido nunca será como o anterior. O que foi, não volta a ser. Ele começou a tomar consciência disso. Que tudo o que lhe vem ao toque pode muito bem ser a última vez que lhe toca. Espera lá. Pensou ele. Décadas. Ele já fala que fez isto e aquilo com décadas de intervalo. Mais décadas virão. Aquele verão, não foi há cinco, foi há dez. Aquela tarde junto ao lago, aquela tarde inesquecível. Ia jurar que tinha sido ontem. Foi aí que ele a beijou. Foi ontem? Não. Estúpido. Foi há dez anos. Nada o impede de morrer amanhã, mas também nada o impede de viver mais quarenta ou cinquenta anos. Pode muito bem estar no meio da sua vida. Supostamente, começa agora. Mas, espera. Se começa agora, tudo o que ele viveu toma agora uma dimensão, um volume. Ele sente uma mochila às costas, agarrada ao seu corpo só porque ele quer. Podes muito bem andar sem esse peso - larga a mochila porra - aceita caminhar mais leve. O que o apavora, agora que ele mudou e se apercebeu do tempo, é que antes ele achava que essa mochila não existia. Agora não só existe, como também se tornará ainda mais pesada. Larga. Deixa. Não. Ele gosta do que viveu. Percebe que quer continuar a enchê-la. Paixões. Amor. Jovem. Infância. Mãe. Largar? Não. Aqui nasceu o fascínio. Ele tem um novo fascínio. Ele tem um fascínio por velhos. Sim, velhos. Pessoas idosas. No tempo - lá está o tempo - em que ele era ignorante sobre o tempo - cá está o tempo - ele via um velho como uma pessoa que é velha. Pronto. Como quem vê uma mesa. Não mais que uma mesa. É mesa, foi mesa, será mesa. Um velho, era um velho. Agora, um velho - para ele - é um portador de uma mochila enorme. Ele vive fascinado sobre o que cada velho tem na sua mochila. Tudo isto parece óbvio. Mas não é. Ele tinha esta incapacidade. Não se pode - não se deve - julgar. Ele tem agora uma maior consciência sobre a existência, sobre o tempo. O fim não é mais que uma palavra. Uma vez ele viu um velho. Ele pediu. Fala-me do teu primeiro amor. Lembras-te do teu primeiro amor? O velho falou do seu primeiro amor. Ele perdeu-se nas palavras do velho, nos suspiros do velho, na boca do velho, que salivava entre detalhes íntimos. Os olhos humedecidos do velho, as rugas vincadas ao sorriso do velho. Era a cumplicidade do velho com o tempo. Ele sabe - ou ficou a saber - que tudo o que o fascina no velho só virá com o tempo. O fim - como tudo - não passa de uma palavra.
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