segunda-feira, 20 de junho de 2011

Parte I


Manhã de frio. Londres quando acorda decidida em ficar fria, é porque assim quer ficar todo o dia. Apesar do frio, as nuvens deixavam o sol cumprimentar os mais madrugadores. Numa pacata rua de Canterbury, nos subúrbios da cidade, acompanhando a estrada recta cada árvore seguia igual, ramos carecas de folhas. Cada casa seguia igual, silenciosa. Porém, quem lá vivia tinha uma novidade para satisfação dos bisbilhoteiros mais famintos. Havia chegado um novo vizinho. “É jovem”, afirmavam uns. “Aquele cabelo precisa de um pente”, achavam outros. “Acabou-se o sossego nesta rua”, apostavam alguns. Falava-se de Federico Morais Nocciolo. Recém-formado em psicologia, decidiu sair de casa e iniciar uma nova fase na sua vida. Viver sozinho. No que diz respeito ao sustento independente, em boa parte ficava ao critério do amor paternal.
De descendência portuguesa e italiana, este jovem rapaz de cabelo encaracolado, suficientemente grande para tapar as orelhas de Dumbo, estava prestes a viver uma grande experiência na sua vida.
Ao entrar naquela casa, que desde logo lhe pareceu grande demais, sentiu que muito ia mudar. Circundado por malas cheias de vida, naquele velho alpendre de madeira, de porta aberta analisava a entrada. Em nenhuma das fotografias que estavam expostas no anúncio de internet conseguia prever o cheiro a húmido que o recebia tão calorosamente. O enorme lance de escadas convidava-o a subir até ao piso de cima para conhecer o seu quarto. Antes de o fazer, olhou para trás e viu o taxi que o trouxe arrancar, para longe da rua que agora era sua.

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