
Que flor colhi eu naquela manhã. Bonita. Mas sem cor, cabisbaixa, já quase sem vida. A terra onde as suas raízes se prendiam estava seca e granulada. Sem vontade de a fazer crescer. Sei que a salvei. Restringi a sua liberdade a um simples vaso. Grande o suficiente para lhe fazer ver que a vida é mais ampla que a sombria floresta onde habitava. Desamparada. As suas tristes folhas respiravam o que o ar lhe trazia, sem preocupação. Contentada, bebia o que as chuvas lhe ofereciam, sem razão. Porque sim. Agora, neste vaso vives. Podes finalmente dizer que sentes a tua terra. Esta que te cobre as raízes. Fortes. Essa terra sou eu quem a fertiliza e molha. Sou eu que me preocupo – todos os dias – em saber se estás bem. Nunca antes te conheceste assim. Desabrochada, colorida, altiva. Esse novo e recente encanto que lanças no ar é difícil de acompanhar. Só eu te entendo. Fui eu que te salvei. Será que me estás grata? Em cada raio de sol que te abraça eu sinto-me a abraçar-te. Nesses abraços de fábulas sinto-me capaz de te ouvir dizer que sim. E nesse instante seguro de imaginação fértil, tu sussurras-me num tom melancólico – Obrigado. Nesse momento eterno como o tempo, escuto sem te olhar e continuo no abraço apertado. Se um dia sentires que o que te dou não serve o teu nítido brilho – como os olhos que te vêem todos os dias – podes sair do pequeno vaso em que te coloquei. Essas raízes, de tão grandes, já tocaram nestas paredes indeterminadas vezes, que já parece insignificante o tanto que te reguei – todos os dias. Se quiseres sair, sai. Vai. Sente ventos cheios daquilo que não te posso dar. Recebe com todas as folhas que te fiz crescer a imensa chuva que nunca te proporcionei. Mas lembra-te, tudo isso que te cairá nas mãos é aleatório. A chuva, o vento. São rasgos de intensa liberdade, mas sem te ter a ti no centro do jardim. Em liberdade serás livre, só não serás feliz.
Se um dia quiseres voltar,
Não vou saber onde te encontrar.
E estes muros são altos, difíceis para uma flor como tu trepar.
Não te surpreendas se no vaso onde costumavas estar,
Vires outra flor no teu lugar.




