Tens de te levantar, Anita. Tão cedo, ainda o acordar parece um sonho envolto em lençóis com calor de uma noite descansada. Preguiça. Levanta-te Anita, não te volto a avisar. A voz de sempre. Mãe. Uma voz de todos os dias, remota, distante, pequena, que só se torna grande quando essa voz lhe pega por um braço e exige uma resposta. Aí sim, sai uma resposta. Pronto, já vou. Um espreguiçar que demora mais que o tempo. Fecha o punho e esfrega o olho esquerdo com raiva. O direito, semiaberto e rabugento, procura as pantufas de cabeça de tigre. Foi ela que escolheu. Mais um dia de escola, mais uma manhã de rotinas. Parece que a madrugada demora em se pôr manhã. Com essa luz faz a mala, estojo, livros, cadernos, deveres, deveres, ui, esqueceu-se. O pequeno-almoço é passado em silêncio, em busca de uma boa desculpa para dar à professora. Ui, os deveres. Sempre foi boa a dar desculpas, sempre se safou. Sempre, ainda hoje. À mesa, o sono, a preguiça, os deveres, as desculpas, perseguem-na como uma nuvem negra. Que peso. Acordas sempre de pernas para o ar, tu. Diz o pai, com um orgulho escondido. Rebiteza, era a palavra que mais ouvia, sem saber bem o que significa ou se existe sequer. Ela sabia que se portava mal, e que essa palavra soava a endiabrada. Essa ela sabia. Ainda assim sentia na voz do pai que essa palavra era articulada com ternura. O charme de menina traquina, rebiteza. Filha única. A birra termina quando encontra na escola o seu grupo de amigas, quadrilhices infantis e risinhos estridentes. Toda a tempestade que carregava consigo de casa ao carro, do carro à escola, desapareceu quando viu as outras meninas. Meninas, para serem mulheres, amigas, de pouco mais de um metro, pequenas. E os seus temas tão pequenos, em importância, quanto elas. Temas que lhes preenchem as, até aí, curtas vidas e lhes despreocupam do importante, ui, os deveres. Pois. Sala de aula. Anita, de 10 anos, conseguiu justificar à professor, de 29 anos, que não teve tempo de concluir os deveres. A de 29 revira os olhos, conhece a cantiga, mas dá-lhe a oportunidade de fazer para amanhã. A de 10 desculpa-se pelo tempo que não teve e agradece o tempo que a de 29 lhe deu. Mas a de 10, Anita, pouco sabe sobre o tempo, e se pouco sabe, muito se esquece. Lá se safou.
Recreio, correria. Cada uma das meninas tem coisas a dizer, sobre este ou aquele rapaz. Giro. Estúpido. Lindo. Idiota. Nada mudou. Ainda hoje. Anita não encanta apenas o pai com esse charme traquina. Encanta qualquer pessoa. De resposta rápida, perspicaz, atrevida. Com esta ninguém brinca, dizem as “continas” da escola, encantadas. Apesar de não ser bonita, é bonita aos olhos de todos os que têm a oportunidade de conhecer os seus jeitos. Os rapazes, dentro da sua masculinidade pouco assertiva, acham-na irresistível. Querem apalpá-la. Correm atrás, apalpam, riem-se, comentam aos outros em segredo, riem-se. As miúdas, com a Anita, ralham, gritam, fazem queixas às “continas", mas de certo modo elas gostam. Algo que vão apenas entender anos mais tarde. Gostam dessa atenção injustificada. Apalpar o quê? Para quê? Porquê? Para eles, é fácil. Porque sim. Gostam de raparigas e confiam no instinto, mesmo que não saibam o que fazer com o rabo que apalpam. E elas, superiores, condenam tal atitude de infantil, mas cada apalpão é registado. Quem deu. A mensagem passa.
A Anita não tem 10 anos. Já teve. Não tem mais. Está mais velha. Tem quase trinta. É assim que gosta de pensar. Apesar de estar na casa dos vinte, olha em frente com orgulho, como se fazer trinta fosse uma conquista. Está perto. A traquina ainda encanta o pai, e outros homens. É solteira, independente e não vive com medo das crises e das austeridades. Mas preocupa-se. Tem tempo para si, para as amigas, amigos e amigos. Homens. Ninguém a acorda. Acorda sozinha, porque quer, e disso sabe ela bem. Ainda bem. Acorda com a mesma preguiça, a birra eterna, com um espreguiçar tão longo como o tempo, abre a janela com o dia já feito e tão vivo, como o céu inteiro prova. Vai ter mais umas férias merecidas, ninguém o nega. Como ela que não nega a ninguém, vai a todas. Rebiteza, não sabe parar, não há férias que a trave cá. Uma ou duas amigas disponíveis para a data e com dinheiro para acompanhar o andamento, Altas rotações. Preparativos, passar pelo sempre amigo que arranja o que é preciso. Uma erva para relaxar. Sempre. E antes de pôr o pé em qualquer avião, sempre, a casa dos pais. Passa uma tarde, um lanche, um jantar. Os cheiros de casa dão-lhe a melhor das viagens, no tempo, sem dinheiro. Onde vais agora? Não páras tu. O pai, pesado e velho, no sofá, no mesmo de sempre, com a mesma ternura de sempre, rebiteza. Alça a perna e descuida-se, sem cuidado. Culpa o feijão e as couves que a mulher pôs na sopa. Pára com isso, sempre o mesmo. Diz a mãe, que a lavar a loiça, despreocupada, apenas sorri. Anita sorri com ela. Sou praticamente uma pessoa que aqui anda. Diz Anita. O pai ri-se, nem um pouco envergonhado. Saciada do carinho quente que os pais lhe dão, sai. Amanhã,vai de férias, com as amigas, vai a todas, não pára.
Dedicado à Rita.