quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Terra de Deitados

“Numa terra de deitados o que precisa ser desenterrado?”

Aqui jaz “alguém”.

Verbo Jazer, provem do latim Jacere, “estar deitado”. Jazer, segundo um dicionário de língua portuguesa, significa estar deitado, estendido, estar morto ou como morto. Atenção, como morto. Significa também, estar sepultado, estar situado, localizado, imóvel, quieto, sereno. Atenção, sereno. Por alguma razão, e nada é por acaso, o verbo jazer é o verbo utilizado para a inscrição da lapide do morto no cemitério. Porquê? Um cemitério é uma enorme metáfora sobre a vida na cidade. E a ironia é que o verbo jazer nos ajuda a entender essa metáfora. Existe no cemitério uma condição semelhante entre os enterrados. A morte. E a condição de estar vivo parece ser também a semelhança em todos os que se movem na cidade. Mas na verdade, quem está deitado, de pé, morto ou vivo?

Na cidade não é preciso morrer para estar deitado, estendido, situado, localizado, imóvel, quieto, sereno ou como morto. É possível jazer mais na cidade do que no cemitério. Tanto na cidade como no cemitério existem diferenciais, existem campas com mais flores, mais altas, mais caras, na cidade existem pessoas mais amadas que outras, mais ricas que outras. Apesar de diferenças aparentes, a condição dos indivíduos em ambas as situações é semelhante. Morto ou vivo. Nada nos distingue, a não ser a nossa história. O que nos torna únicos é a nossa história, seja vivo, seja morto.

A terra dos deitados não distingue cemitério de cidade, é tudo uma só. Aqui jaz o morto e aqui jaz o vivo. Todo o mundo jaz. A nossa condição é eternamente semelhante. Ser humano. Com a capacidade de deitar – jazer – figurativa e literalmente. O que precisa ser desenterrado é o que nos torna únicos, a nossa história. Está na nossa história o que prova que um dia andámos de pé. Porque muito provavelmente vamos jazer para sempre, serenos.

Anita Vai a Todas

Tens de te levantar, Anita. Tão cedo, ainda o acordar parece um sonho envolto em lençóis com calor de uma noite descansada. Preguiça. Levanta-te Anita, não te volto a avisar. A voz de sempre. Mãe. Uma voz de todos os dias, remota, distante, pequena, que só se torna grande quando essa voz lhe pega por um braço e exige uma resposta. Aí sim, sai uma resposta. Pronto, já vou. Um espreguiçar que demora mais que o tempo. Fecha o punho e esfrega o olho esquerdo com raiva. O direito, semiaberto e rabugento, procura as pantufas de cabeça de tigre. Foi ela que escolheu. Mais um dia de escola, mais uma manhã de rotinas. Parece que a madrugada demora em se pôr manhã. Com essa luz faz a mala, estojo, livros, cadernos, deveres, deveres, ui, esqueceu-se. O pequeno-almoço é passado em silêncio, em busca de uma boa desculpa para dar à professora. Ui, os deveres. Sempre foi boa a dar desculpas, sempre se safou. Sempre, ainda hoje. À mesa,  o sono, a preguiça, os deveres, as desculpas, perseguem-na como uma nuvem negra. Que peso. Acordas sempre de pernas para o ar, tu. Diz o pai, com um orgulho escondido. Rebiteza, era a palavra que mais ouvia, sem saber bem o que significa ou se existe sequer. Ela sabia que se portava mal, e que essa palavra soava a endiabrada. Essa ela sabia. Ainda assim sentia na voz do pai que essa palavra era articulada com ternura. O charme de menina traquina, rebiteza. Filha única. A birra termina quando encontra na escola o seu grupo de amigas, quadrilhices infantis e risinhos estridentes. Toda a tempestade que carregava consigo de casa ao carro, do carro à escola, desapareceu quando viu as outras meninas. Meninas, para serem mulheres, amigas, de pouco mais de um metro, pequenas. E os seus temas tão pequenos, em importância, quanto elas. Temas que lhes preenchem as, até aí, curtas vidas e lhes despreocupam do importante, ui, os deveres. Pois. Sala de aula. Anita, de 10 anos, conseguiu justificar à professor, de 29 anos, que não teve tempo de concluir os deveres. A de 29 revira os olhos, conhece a cantiga, mas dá-lhe a oportunidade de fazer para amanhã. A de 10 desculpa-se pelo tempo que não teve e agradece o tempo que a de 29 lhe deu. Mas a de 10, Anita, pouco sabe sobre o tempo, e se pouco sabe, muito se esquece. Lá se safou. 
Recreio, correria. Cada uma das meninas tem coisas a dizer, sobre este ou aquele rapaz. Giro. Estúpido. Lindo. Idiota. Nada mudou. Ainda hoje. Anita não encanta apenas o pai com esse charme traquina. Encanta qualquer pessoa. De resposta rápida, perspicaz, atrevida. Com esta ninguém brinca, dizem as “continas” da escola, encantadas. Apesar de não ser bonita, é bonita aos olhos de todos os que têm a oportunidade de conhecer os seus jeitos. Os rapazes, dentro da sua masculinidade pouco assertiva, acham-na irresistível. Querem apalpá-la. Correm atrás, apalpam, riem-se, comentam aos outros em segredo, riem-se. As miúdas, com a Anita, ralham, gritam, fazem queixas às “continas", mas de certo modo elas gostam. Algo que vão apenas entender anos mais tarde. Gostam dessa atenção injustificada. Apalpar o quê? Para quê? Porquê? Para eles, é fácil. Porque sim. Gostam de raparigas e confiam no instinto, mesmo que não saibam o que fazer com o rabo que apalpam. E elas, superiores, condenam tal atitude de infantil, mas cada apalpão é registado. Quem deu. A mensagem passa. 
A Anita não tem 10 anos. Já teve. Não tem mais. Está mais velha. Tem quase trinta. É assim que gosta de pensar. Apesar de estar na casa dos vinte, olha em frente com orgulho, como se fazer trinta fosse uma conquista. Está perto. A traquina ainda encanta o pai, e outros homens. É solteira, independente e não vive com medo das crises e das austeridades. Mas preocupa-se. Tem tempo para si, para as amigas, amigos e amigos. Homens. Ninguém a acorda. Acorda sozinha, porque quer, e disso sabe ela bem. Ainda bem. Acorda com a mesma preguiça, a birra eterna, com um espreguiçar tão longo como o tempo, abre a janela com o dia já feito e tão vivo,  como o céu inteiro prova. Vai ter mais umas férias merecidas, ninguém o nega. Como ela que não nega a ninguém, vai a todas. Rebiteza, não sabe parar, não há férias que a trave cá. Uma ou duas amigas disponíveis para a data e com dinheiro para acompanhar o andamento, Altas rotações. Preparativos, passar pelo sempre amigo que arranja o que é preciso. Uma erva para relaxar. Sempre. E antes de pôr o pé em qualquer avião, sempre, a casa dos pais. Passa uma tarde, um lanche, um jantar. Os cheiros de casa dão-lhe a melhor das viagens, no tempo, sem dinheiro. Onde vais agora? Não páras tu. O pai, pesado e velho, no sofá, no mesmo de sempre, com a mesma ternura de sempre, rebiteza. Alça a perna e descuida-se, sem cuidado. Culpa o feijão e as couves que a mulher pôs na sopa. Pára com isso, sempre o mesmo. Diz a mãe, que a lavar a loiça, despreocupada, apenas sorri. Anita sorri com ela. Sou praticamente uma pessoa que aqui anda. Diz Anita. O pai ri-se, nem um pouco envergonhado. Saciada do carinho quente que os pais lhe dão, sai. Amanhã,vai de férias, com as amigas, vai a todas, não pára. 

Dedicado à Rita.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

experiência

mundo vive
cheio de pressa e informação
possui inteligência pouco coração
cresce rápido diz o pai
sê juiz sê doutor
mas dinheiro não compra tempo
muito menos amor
tudo é certo e sabido
e o desconhecido?
ficou por desvendar
permite-te ser permeável
se de homem te posso chamar
algo irás encontrar
cautela com a razão
respeita a emoção
nenhuma só controla a situação

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O velho

Ele tem um novo fascínio. Mas já lá vamos. Antes existia algo nele que permanecia ignorante sobre o tempo. A idade. Não existia nele uma consciência sobre o passar das horas, dos dias, dos anos. Ele - por querer - acreditava que ficaria jovem por muito tempo. Lá está o tempo. Esse "muito tempo" para ele não tinha tempo. Falta de noção. Não era por mal, ele era assim. Ele não era o único, atenção. Todos acham que o fim é apenas uma palavra. Nunca associamos o fim ao parar de respirar, à dor, ao sofrimento, à velhice, à morte. O presente é eterno. A força, a pele, os dentes, o cabelo, são eternos. Ele pensava assim. O fim era pouco mais que uma palavra. Porém, ele mudou. O corpo foi apanhado pelo tal tempo, aquele tempo que nos faz olhar ao espelho e descobrir que certos riscos não estavam ali antes. Merda. Ele mudou mas o fim continua a ser para ele uma palavra apenas. Agora, o tempo já lhe é mais real. Corre ao nosso lado. Se estalar os dedos no intervalo de cada segundo do relógio estou fintar o ritmo do tempo, mas cada estalar de dedos repetido nunca será como o anterior. O que foi, não volta a ser. Ele começou a tomar consciência disso. Que tudo o que lhe vem ao toque pode muito bem ser a última vez que lhe toca. Espera lá. Pensou ele. Décadas. Ele já fala que fez isto e aquilo com décadas de intervalo. Mais décadas virão. Aquele verão, não foi há cinco, foi há dez. Aquela tarde junto ao lago, aquela tarde inesquecível. Ia jurar que tinha sido ontem. Foi aí que ele a beijou. Foi ontem? Não. Estúpido. Foi há dez anos. Nada o impede de morrer amanhã, mas também nada o impede de viver mais quarenta ou cinquenta anos. Pode muito bem estar no meio da sua vida. Supostamente, começa agora. Mas, espera. Se começa agora, tudo o que ele viveu toma agora uma dimensão, um volume. Ele sente uma mochila às costas, agarrada ao seu corpo só porque ele quer. Podes muito bem andar sem esse peso - larga a mochila porra - aceita caminhar mais leve. O que o apavora, agora que ele mudou e se apercebeu do tempo, é que antes ele achava que essa mochila não existia. Agora não só existe, como também se tornará ainda mais pesada. Larga. Deixa. Não. Ele gosta do que viveu. Percebe que quer continuar a enchê-la. Paixões. Amor. Jovem. Infância. Mãe. Largar? Não. Aqui nasceu o fascínio. Ele tem um novo fascínio. Ele tem um fascínio por velhos. Sim, velhos. Pessoas idosas. No tempo - lá está o tempo - em que ele era ignorante sobre o tempo - cá está o tempo - ele via um velho como uma pessoa que é velha. Pronto. Como quem vê uma mesa. Não mais que uma mesa. É mesa, foi mesa, será mesa. Um velho, era um velho. Agora, um velho - para ele - é um portador de uma mochila enorme. Ele vive fascinado sobre o que cada velho tem na sua mochila. Tudo isto parece óbvio. Mas não é. Ele tinha esta incapacidade. Não se pode - não se deve - julgar. Ele tem agora uma maior consciência sobre a existência, sobre o tempo. O fim não é mais que uma palavra. Uma vez ele viu um velho. Ele pediu. Fala-me do teu primeiro amor. Lembras-te do teu primeiro amor? O velho falou do seu primeiro amor. Ele perdeu-se nas palavras do velho, nos suspiros do velho, na boca do velho, que salivava entre detalhes íntimos. Os olhos humedecidos do velho, as rugas vincadas ao sorriso do velho. Era a cumplicidade do velho com o tempo. Ele sabe - ou ficou a saber - que tudo o que o fascina no velho só virá com o tempo. O fim - como tudo - não passa de uma palavra.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Confiei

Confiança em demasia É o ar dos sufocados Uma simples melodia De acordes desafinados Que soam em sintonia

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Caro Eu

Pudesse eu ver-te, e com alguma vergonha apresentava-me. Queria poder me definir perante ti, e explicar no que me tornei, ou tornámos, hoje. Tu que ainda não entendes bem que rumo seguir, queria te explicar como é difícil decidir. Queria poder te mostrar como viver das opções que tomo, ou tomamos, é a sensação de domínio e risco que torna a vida um jogo, no qual não terás volta a dar. Sei que tens apenas 15 anos, mas gostava de te ver e talvez tivesses algum orgulho no que me tornei, ou tornámos. Gostava de te dizer que sonhar é o que vai fazer de ti cada vez melhor, mesmo que possa parecer louco. O nosso encontro não seria para te salvar de mal nenhum, acredita. Estou, ou estamos, muito bem. Não mais queria senão contar-te como tem sido a nossa vida. Sim a nossa. Fiz o melhor que pude, mas às vezes acho que te desiludo, e anseio que a tua ingenuidade solte palavras que descrevam os sonhos que às vezes me esqueço que sonhámos. Juro, que recentemente tenho dado mais atenção a tudo o que um dia planeamos fazer, que tanto nos ocupava e nos fez passar horas em mundos fechados, só nossos. Gostava de estar perante ti, humilde, e perceber que cresci. Perceber que tu é que estás correcto. Provavelmente não ias dar valor, és muito novo, e conheço-te bem para saber que me ias olhar acautelado, mas o facto de me lembrar de ti, só por si é um gesto grande. Eu respeito tudo o que um dia pusemos na cabeça e determinantemente concluímos que não podia ser diferente. E se o fiz diferente, desculpa. Mas este gesto, este meu respeito por ti, significa que deves continuar a ser assim. E não faças diferente, como eu fiz. Se pudesse dir-te-ia para, aqui e ali, seguires o nosso plano. Tenho saudades tuas. Gostava de te dizer para não te preocupares, que não engordámos, nem estamos em vias de ser careca, para já. Em geral temos sorte. As coisas, às vezes, caiem-nos no colo, só não esperes ganhar no jogo. Nisso sim, temos azar. Meu caro Eu, se te pudesse ver dir-te-ia tudo isto com alguma vergonha e humildade, já o disse, por saber que és mais puro e seguro que eu. Na despedida, já sei que me ias estender a mão, tímido e com medo de abraçar um homem de barba, mas eu de qualquer modo ia te roubar um abraço, sentido, para me lembrar como é importante saber encarar o que fomos um dia. E claro, tu dirias Adeus, distante, desconfiado – espero que nunca desiludido – mas eu, com o respeito que te tenho, diria Obrigado por tudo.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Fixação


Nele se perde, porque nada nele conhece. Adora explorar o que de mais estranho lhe vem ao toque, e passa horas, sozinha, dentro dele. Qualquer olhar vazio, direccionado para outro qualquer momento, sem ser aquele vivido com ela, não lhe é de nada importante, porque ela já se ocupa demais com os momentos em que, por acaso, os olhos dele se encontram com os dela. Cada palavra por ele pronunciada ganha asas, solta-se pelo ar e esvoaça desordenada, e só ela tem o trabalho de as apanhar, qual contumaz caçador de borboletas. Suspira sobre o que ele diz, ainda que nenhuma palavra pose sobre ela.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Sala


Ontem ela acordou e esqueceu-se que também ele, às vezes, sabe como sorrir. Fica feliz com o que ela diz. Ele não finge. Ela rápido se lembrou. Passam-se horas, e o tempo é o que menos passa. Correm copos, fica o vinho. A noite salta na sala, a madrugada espreita pela porta. Nos olhos dela vê-se uma noite alucinante, que faz tremer o passado. O disfarce mascara-se de conversas sobre Deus. Existe sim. Não, não existe. Ela acredita, mas fé é o que lhe falta. Para ele existe apenas fé. A crença dela é pessimista. Acreditar e não ter fé, é como ter carro e andar a pé. Diz ele, e nem acredita. A madrugada entra, senta e fica. Ela esqueceu-se que ele consegue ver os pedaços dela - que ele deixou - no chão. Mesmo que não lhes dê a mão para pô-los no lugar. Ele não tem mãos firmes, ele sabe, e explica que em tudo o que agarra, lhe escapa como areia no mar. Mas sem vontade. Queria ele ser agarrado. Ela sentada, respira, aguarda. Ele tenta convencê-la que ela gosta dele, e ela fixa-se em como é chato o coração. Do pouco que resta, diz ele que já não presta. Sai. Pede ela. Mesmo que seja chato, ela quer que o coração bata. Funcione. Anseie. Caso contrário, sai. Ele fica. A manhã altiva e despreocupada, entra sem convite, para iluminar os olhos dela. Estão fechados, mas não deixam de ser do escuro penetrante, que ele elogia. Aquele escuro que tanto se molha de angustia, por saber que de si sai mais luz do que a manhã trouxe. Sai vida e essa vida preocupa. Agora sim, ele tem de sair. Ela sai com ele.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Vou II

Quem se senta comigo hoje sabe, que nada disto durará mais que hoje. É aqui. Cheguei. Gostaria de falar do inicio, mas cheguei ao fim. Em cada mão sobre o ombro, sorrio firme, agradeço. Salvo memórias nas quais sou mais um, implico com a suavidade mas de forte sobra pouco. É aqui que paro e escuto o que me dá vento, que me arrefece do quente que está este lugar. Guardo tudo meu e levo comigo o que posso. O que perdi pelo caminho encaro como oferta, de tudo aquilo que tem escolha. Escolhi oferecer-te este lado de mim. O resto deixa comigo, ainda preciso, para ser largado de bem alto e ver tudo passar, tudo aquilo que passei. Solto brilho de cada um dos olhos, desinibido. E que me desculpe a quem faço o mesmo, mas admito, é bonito. Saudades. Já as sinto.

num quarto quente no Rio de Janeiro, último dia

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Travesti


A barriga suja de uma cidade secreta
Na estação as mesmas putas baratas de sempre, junto ao bar
E os gajos sem camisa desprezam tudo o que a mãe acredita
Um maço de cigarros e um pouco de cocaína, ajuda-te a sentir menos estranho

O meu velho disse, “Ela não sai, a menos que alguém esteja junto dela”
“E ela vai brilhar, assim que pisar o risco, com as mãos amarradas à cadeira”
Eu disse, “Espalha no chão, mete um som de ruído branco, como um traveca naquela rua”

Estes parolos têm a cabeça feita num nó
Eles não sabem o que amam ou merecem receber
Provavelmente põem o isco no anzol
Sem saber que peixe gostariam de morder
Esta noite

Ir para casa em serviço
Isso é que é paz?
Dedos enfiados no sujo
E ele cospe os próprios dentes.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011


Atenção... Luzes, Câmera, Ação!
Os maiores clichês, banda sonora a condizer
Uma grande produção a não perder
Para entender, que assim é a nossa relação.

Que intensa foi a experiência
Criámos juntos cada cena com amor – sempre
Sem entender com certeza a essência
E mesmo que isso trouxesse dor – sempre.

Muito investimento em publicidade
Tinha de ser a melhor das estreias
Sempre foi a nossa vontade
Ter todas as salas, todas as noites, cheias.

Tal como o coração a sala abriu ansiedade
A tela exibiu lindas paisagens, perfeita iluminação
A música também, tudo em conformidade
Mas os dois, onde estão?

Assim é o nosso filme, Amor
Um guião lindo, que ambos queriamos interpretar
No dia que deveriamos ter dado o nosso melhor
Decidimos não aparecer para gravar.

Todas as cenas estão ideais, cenário de qualidade
Vazias em emoção, não se ouve uma fala
O grande plano é nosso, mas o fundo distorce a verdade
Sexo escaldante, nunca aconteceu – cena da sala.


Houve uma estreia de uma história que nunca chegou a ser
Terminada. Foi feita de saudade, distância e planos
Terminou. O difícil que foi aqui chegar não preciso nem dizer
Vamos, cada um faz o seu filme, mesmo que nos leve anos - sempre

domingo, 31 de julho de 2011

Parte V



- Vi que chegou ontem. Agrada-lhe esta vila? Canterbury é lindo vai adorar, especialmente a Catedral... Aaah, é magnífica! – disse Tom vazando chá no seu copo.

Federico observava os movimentos meticulosos e coordenados de Tom, enquanto este pegava na chávena. Era um senhor de charme inquestionável. Tom tinha por hábito sorrir ligeiramente enquanto falava, e os olhos acompanhavam o sorriso desenhando as suas rugas que envolviam os olhos azuis profundos, expressivos e frontais.

Acabado de mudar, Federico continuava com a sua casa de pernas para o ar. Ver a casa de Tom impecavelmente limpa e organizada, para além de uma inveja imensa, fazia crescer uma dúvida.

- Desculpe-me, mas... é casado?

- Fui. Divorciei-me faz cinco anos. Vivo sozinho desde então... mas porquê? Não tenha medo de perguntar homem, esteja à vontade. Afinal de contas somos vizinhos. Sendo eu a contar ou não, irá saber tudo sobre mim de qualquer modo. – Disse, soltando umas gargalhadas bem genuínas.

Depois de horas de convívio, com conversas que serviram para Tom despejar experiências de vida, Federico voltou para casa feliz por ter conhecido finalmente um bom vizinho. Aquela casa arrumada inspirou-o a pegar num aspirador de uma vez por todas. O fascínio por Tom Sachs tinha começado.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Já lhe fizeste perguntas?
E nada?
Que perguntaste tu?
Que falta de noção.
Não admira que nada surja.
Tens um toque suave de mais,
Toca-lhe como deve ser porra.
Quantas cartas lhe escreveste?
A lápis?
O carvão vai com o tempo.
Tem que ser com tinta.
Marca-lhe com sublinhados,
Com letras carregadas,
Dessa tua tinta tímida, cuspida.
Já viste bem como és?
Pára.
Não precisas gritar agora.
Agora, pega em tudo o que já fizeste,
Pensa que valeu a pena.
Faz-lhe as perguntas interessantes.
Pergunta se está bem.

Fica grato com a resposta.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Resposta

Quem não te conhece diria que os teus passos não se calçam de antigas pegadas.
Parecem ao invés andar descalços por caminhos aleatoriamente escolhidos e criteriosamente desconhecidos.
Quem não te conhece pensa que só te secas porque te ensopaste em lágrimas que ainda irás chorar, no dia em que descobrires que o gelo queima muito mais que a chama.
Esse mesmo gelo, onde vês o reflexo dos teus gritos, irá reflectir um dia o mais melodioso canto.
Quem não te conhece sabe que nunca te conhecerá, porque nunca serás amanhã, o que és hoje.
Quem não te conhece gosta de assistir às tuas mutações tão certas de inalterabilidades.

Parte IV


Algo interessante? Olhar a rua. Observar vizinhos. Agora com tempo, Federico sentou-se no seu sofá verde seco, de ombros encolhidos na tentativa de aquecer o pescoço, com o Cappuccino entre as mãos, embrulhado numa manta castanha que podia muito bem ser confundida com um velho trapo, e iniciou um processo de coscuvilhice elaborado. Para lá da grande vidraça da sala que separava Federico da rua - que agora era sua - uma pequena menina brincava com uma bola de futebol. Com a sua bicicleta despejada no meio do passeio, dava violentos pontapés na bola, de um lado para o outro. Em cada pontapé parecia ansiar a chegada de um parceiro para receber e devolver a bola. Então só brincava, só. Com duas tranças compridas, compostas por um cabelo forte, negro, que lhe caía longo pelas costas. A cara branquinha e inocente. Era a pequena Darla Warren, filha única de uma família bastante reservada, assim era conhecida por todos. De quando em vez, ouviam-se gritos, cheios de palavras balbuciadas, vindos da casa da pequena Darla. Ela parecia feliz e indiferente a tudo o que pudesse parecer instável naquele lar. Descendo a rua, um homem grisalho envergava uma farda velha, provavelmente da marinha. Era visto, com alguma regularidade, sair de casa com sacos de plástico pretos. Com a agilidade característica de um velho de 80 anos, atravessava o seu jardim com os sacos na mão, até chegar ao contentor do lixo. Com a mesma agilidade regressava para casa. Sacudia as mãos, em gesto misto de limpeza e dever cumprido. Era conhecido por Capitão. Tratava todas as pessoas, sem excepção, por “meu Soldado”. Dá-se pelo nome de Claus Jordan. Na casa em frente vivia um jovem casal, aos olhos de Federico, peculiar. Casal de “Góticos”, assim decidiu chamá-los. Vestiam-se de preto, com grandes botas e com correntes que quase arrojavam no chão. Ambos, furados na cara, tatuados nos braços e com os olhos pintados de preto. Os cabelos, graças a fixadores, certamente de qualidade, desafiavam as leis da gravidade. Esta era a família Wheeler, Georgia e Flem.
Aquela rua que ontem parecia agradável, estava agora feita no bizarro que os seus olhos alcançavam. Federico chegou-se à frente no sofá, saindo da sua posição confortável, pousou a chávena já a meio e olhou para a casa do lado.

- Então é dali que vem o som de corta sebes. – disse Federico ao ver o homem que no dia anterior tinha visto na espreguiçadeira a ler um jornal.

Cinquenta e poucos, a tratar do seu desleixado jardim, sem pessoas a gritar, sem uma farda velha, nem piercings. Perfeito. Haja alguém normal nesta rua – normal.

- Precisa de ajuda? – perguntou Federico ao vizinho – normal.

- Ora viva... – respondeu este descendo o escadote com pressa, tirando as luvas de jardinagem e esticando a mão para um forte cumprimento. – Muito prazer, Tom Sachs.